E sexo de cavalo à mostra, ofende?

Um tipo com uma rodilha branca na cabeça, e em cima dela nem uma canastra de fanecas, um quase ayatollah mas um total presidente iraniano - enfim, Hassan Rohani - podia talvez ofender-se com uma estátua romana feita há dois mil anos, que era uma cópia duma estátua grega feita há 2300 anos... A Vénus Capitolina sai do banho, é certo, mas tenta esconder, embora em vão, os seios com a mão direita e a região genital com a mão esquerda. Dir-me-ão, a senhora é tão bela, antiga e de mármore, que não podia ofender ninguém. Mas, lá está, como se pode garantir o que vai na cabeça de alguém que leva na cabeça uma rodilha sem canastra? Fica, pelo menos, um talvez... E a dúvida transforma-se em certeza quando o da rodilha leva um cheque de 17 mil milhões para negócios vários: tape-se a estátua! Calma, não foi tão simbólico assim, não foi com uma burca, foi com uma caixa do IKEA. Quatro tábuas à volta, um tampo e dois mil anos de história apagados. Uf!, Roma ainda não é o Estado Islâmico, não dinamita, só esconde. E não foi por extremismo religioso, mas só por miserabilismo moral. Uma pequena caixa para a Vénus Capitolina, um grande salto à retaguarda para a Humanidade. Ora, nisto de recuar, o problema é o gosto que se entranha. Matteo Renzi, desde ontem o pobre diabo que governa a Itália, levou Roahni para uma sala onde havia a estátua equestre de Marco Aurélio. Olhem o terror nos olhos de Renzi: e pila de cavalo à mostra, ofende?

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?