E o Óscar foi... para propaganda abençoada

Em junho, o referendo brexit pode atirar a União Europeia pela borda fora da Grã-Bretanha. E, em novembro, acabam os dois mandatos de Obama que, em política externa, foram marcados pelo "Pivot to East Asia", recentrando os interesses americanos no Pacífico. Quer dizer, talvez fiquemos em breve sem um dos dois únicos exércitos europeus a sério (restará, por enquanto, o francês) e sem o interesse privilegiado da única potência mundial na economia europeia.

Assim, do ponto de vista estratégico, o único lugar onde os interesses europeus continuam a ser acerrimamente defendidos é na chamada "faixa vermelha". Ou passadeira, se quiserem. Acontece todos os anos no Teatro Dolby, Hollywood, mas como é transmitida para todo o mundo a Noite dos Óscares preenche a mesma função salvadora que já foi da BBC (durante a II Guerra Mundial) e da Voz da América (na Guerra Fria).

Num misto de Nuno Rogeiro e Pipoca Mais Doce, com o risco de falhar algumas das mensagens pela liberdade, assinalo os momentos mais empolgantes desta madrugada. Fico-me pelas imagens porque uma foto vale por mil declarações de direitos. Começando por cima, lembro que foram mostrados e assumidos: louros (Naomi Watts), castanhos (Sofia Vergara), negros (Whoopi Goldberg), ruivos (Sophie Turner)... Cabelos. Curtos (Cate Blanchett) e longos (Kate Winslet).

Pode parecer-vos coisa pouca (estão a brincar, não estão?), mas talvez um dia em Lisboa ou Munique deixemos de os ver, aos cabelos femininos. Como antes de um avião aterrar em Riade ou em Teerão. Há pouco, estavam lá, e, de um momento para outro, deixam de estar, foram à casa de banho para desembarcar segundo a sharia. Então, como em tudo, só daremos pela importância quando não houver.

Entretanto, a passadeira vermelha foi um glorioso lugar de resistência (mesmo não sabendo que o é). Descendo, o sorriso maduro de Julianne Moore, enigmático de Lady Gaga, firme de Patricia Arquette, trocista de Amy Poehler... É tão bom ver bocas como elas gostam ser vistas. E, também, ombros. Nus (Reese Witherspoon), com duas alças (Brie Larson), quatro alças (Charlize Theron), enfim, como lhes dava na gana, com repolho lilás (Heidi Klum).

Mamas maternais (Emily Blunt), ousadas (Olivia Wilde) e autoritárias (da presidente da Academia Cheryl Brook). Coxas douradas (Margot Robbie), sugeridas (Priyanka Chopra), expostas (Kerry Washington). Conservador, só achei mal aquela pulseira negra no tornozelo esquerdo de Jennifer Garner. Era desnecessário um sensual tão provocante.

Finalmente, não sei se viram Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, agarrados, por ele ter ganho o Óscar. Não são irmãos, nem pai e filha, ou mãe e filho, nem casados são. A que título se agarraram, quando corre sobre eles (há imagem duma mão a descer pelo vapor dum vidro) que estiveram num automóvel, sozinhos, no porão do Titanic? A resposta é simples: porque lhes apeteceu.

Para o ano, inshallah, haverá mais abençoada propaganda desta.