Carta aberta em jeito de dedicatória

Há dias, o primeiro-ministro Mariano Rajoy recebeu os líderes dos partidos espanhóis. Entre eles, Pablo Iglesias, do Podemos, partido que, mudando o que há para mudar, seria por cá o BE. À saída, o esquerdista ofereceu um livro ao capitalista. Livro de Antonio Machado (1875-1939), vocês sabem, o poeta daqueles dois versos que todos conhecemos, que mais não seja cantados por Serrat: "Caminante, no hay camino/ Se hace camino al andar." Não conheço melhor hino ao reformismo - não te vás por ideias feitas, vai fazendo, alerta e confiante... Mas não foi um simples toca e foge de Pablo Iglesias, que alguns nos apresentam como empedernido radical. Ele fez uma dedicatória ao adversário: "Estimado Mariano, escreveu o nosso grande amigo Antonio Machado "para dialogar, pergunta primeiro, depois escuta..."" Continuamos, pois, na mão estendida. Mas há mais: o livro era o Juan de Mairena. Machado, como o nosso Pessoa, inventava heterónimos e falava por eles. Filósofo e professor, como quis o seu biógrafo (Machado), Juan de Mairena é autor de ideias que combatem, radicalmente, o radicalismo. Dele, cito duas frases. Primeira: "Não ter vícios não acrescenta nada à virtude." Segunda: "Tirar a batuta a um maestro é tão fácil quanto difícil é reger com ela a Quinta Sinfonia de Beethoven." Traduzido até ao osso: não chega protestar, há que ajudar a fazer. Que lição aos acantonados, à esquerda e à direita, destes nossos tão prometedores dias.