Caridade com quem não merece

Em 1993, o padre Frederico Cunha foi julgado e condenado na Madeira por homicídio de um menor. Estive no julgamento e lembro-me de ter escrito sobre a angústia que eu teria em ser juiz da morte do rapazinho que caiu das escarpas do Caniçal: o padre nunca confessou, nem havia testemunhas. De facto, o juiz condenou, disse-o na sentença, "por convicção". Havia, porém, crimes de Frederico Cunha, esses, sim, com testemunhas várias. Menores depuseram em tribunal sobre o assédio sexual que ele lhes fez, acusações que nem foram refutadas pelo réu. Apesar disso, o então bispo do Funchal comparou a actuação judicial contra Frederico à "perseguição que fizeram a Cristo". É notável que os indícios de abuso de menores não tenham dado prudência ao bispo no seu apoio ao padre. Essa nossa história antiga pertence ao escândalo mundial em que a Igreja Católica é, agora, denunciada pelo seu comportamento com casos comprovados de pedofilia de padres. O cardeal Saraiva Martins, perante a dúbia actuação da hierarquia católica nesses casos, comparou a atitude da Igreja com a de uma "família que lava a roupa suja em casa." Ora a questão não é a casa da Igreja ter pedófilos - é um pecado de que nenhuma família está livre. O problema é eles, conhecidos, não terem sido expulsos.

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