Aviso à boa causa

De Javier Marías, romancista espanhol, sou fiel ao cronista dominical que ele é no El País. Há uma dúzia de anos, comprei uma recolha das suas crónicas, reunidas sob o título que também o é de uma das crónicas: El Oficio de Oír Llover. O ofício de ouvir chover é o adormecimento entre o rumor manso e o troar da atualidade, tão próprio dos tempos, e também pode acontecer, dizia então Marías, na relação do cronista e dos seus leitores - o que aquele escrevia, caía, nestes, demasiadas vezes em saco roto. Não foi aparentemente o que aconteceu com a sua crónica de domingo passado, sempre no El País. Ou foi? A crónica levou a um escândalo nestes dias de indignações fáceis. O facto é que o alerta de Javier Marías era necessário - mais fósforo (inteligência), menos fósforo (palito incendiário). De que falou ele? Começou por dizer que só pode ser bom haver "uma rebelião" moderna contra essa coisa antiga que é "mulheres violadas, acossadas e manuseadas sem seu consentimento". Mas depois - vou condensar - Marías chamou "pseudoverdade" ao que o é: o pressuposto de que "as mulheres nunca mentem". O que leva, segundo ele, a uma inversão de um princípio de justiça que julgávamos dado por adquirido: não é o denunciado que deve fazer a prova da sua inocência. E, finalmente, Javier Marías lembra um preceito antigo: "Antes fiquem sem castigo alguns criminosos do que sofra um só inocente a injustiça da prisão ou da morte..." O ofício de ouvir a chuva, seja mansa ou de temporal, leva-nos a momentos perigosos de não pensar, dizia há uma dúzia de anos Javier Marías. Agora, ele acredita que o desleixo com que agimos - a tal pseudoverdade e o abandono de certos princípios fundadores, porque a causa é justa - vamos pagá-lo caro. Anteontem, Marías finalizou a sua crónica com um aviso: "(...) as acusações fundadas e verdadeiras - e acredito que as há aos milhares - serão objeto de suspeita e no máximo cairão em saco roto, haja ou não provas." Ouvir a chuva há de encarregar-se disso.

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