As engraçadinhas e o bigode de Mário Nogueira

António Costa está a viciar-se em ganhar eleições depois de perdê-las, e isto não é uma acusação, é sublinhar um mérito. A política é como a economia: deve ser a boa gestão dos recursos disponíveis. Ter dois candidatos "da área" votados a perder, sem se comprometer com nenhum é boa fórmula quando não pôde haver melhor (Guterres) e do outro lado estava um provável invencível. Acresce que Costa teve sorte por esse vencedor provável ser um político inteligente e não uma ressabiada força de bloqueio.

Porém, desta vez, a vitória eleitoral (enfim, a do mal o menos) é manchada pela confirmação dum perigo potencial. A frágil aliança governamental é uma tripeça em que um dos pés de sustentação fraqueja. Pior, sente-se tapado por outro. Se, em outubro, comparar o PCP com o BE já doeu aos comunistas, o resultado de domingo, Edgar Silva com menos 2,5 menos votos do que Marisa Matias, é muito mau. Mais, os dois resultados seguidos sugerem uma tendência...

Significa isto que se os estados-maiores dos partidos políticos portugueses se reunirem para perceber domingo passado (o que aconteceria se eles fossem geridos como empresas), o CC do PCP deveria debater um ponto único: mudar. Obrigatoriamente, mudar. Porque os comunistas cada vez mais se parecem a anedota do casamento por interesse ou por amor: o eleitorado vê no PCP um caso de amor, porque interesse não tem nenhum.

Isso seria um problema interno - em toda a Europa já resolvido com o desaparecimento de PCs no séc. XXI - não fosse o nosso PC um dos sustentáculos da solução governativa. Os outros dois percebem-se: o PS, porque serve para califa, e o BE porque é o Grão-Vizir Iznogud que quer o lugar do califa. Estes últimos conhecem as linhas com que se cosem e vão-se apoiar antes de lá mais para a frente se defrontarem. O problema é com o PCP, que se descobre, agora, o verdadeiro "it's no good", sem préstimo algum.

Ontem, Jerónimo de Sousa disse: "Podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinhos, um discurso populista, seria fácil aumentar a votação..." Alusão evidente aos sucessos recentes de Marisa Matias, Catarina Martins, Mariana Mortágua... Não percebeu nada. O problema do PCP é o bigode de Mário Nogueira ou o ar do ex-padre Edgar Silva. E o problema não é o visual conservador. Mas tudo o resto sê-lo.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.