Aquele país que ali vai conhecemo-lo mais do que sabemos

A data 11 de novembro é, claro, sobretudo angolana, assinala a sua independência. Mas é também portuguesa - é um novo país que leva alguma coisa de Portugal. O passado comum foi baseado numa relação desigual, de colonizador e de colonizado, mas foi tão longo e misturado que deixou marcas no novo país. A soberania que pressupõe a conquista da independência permite que Angola possa fazer o que quiser dessas marcas. E o que ela quer, 40 anos depois de independente, entra pelo ouvido dentro: hoje, por exemplo, fala-se mais português em Angola do que na época colonial. Mais em números absolutos, o que é natural porque a população triplicou os seis milhões de 1975; e também mais, o que é elucidativo, em números relativos, sendo hoje mais provável encontrar sempre alguém que fale português numa aldeia angolana do mato. O etnólogo Óscar Ribas, cego e luandense, filho de mulher da ilha, negra de panos, reservou um verbete para a palavra "mato: região afastada do mar."

A língua portuguesa, coisa de origem portuguesa, é hoje também angolana. É mesmo um esteio maior da unidade de Angola. "A minha pátria é a língua portuguesa", poderia servir de conversa identitária entre um estivador cabinda e um pastor de bois do Namibe. Os angolanos apossaram-se dela e incutem-lhe vida e originalidade. Se os jornais e as televisões de Angola estão demasiado agarrados ao formalismo, na rádio, mais popular, fala-se a mais dialogante e criadora língua portuguesa de todos os territórios do mundo que conheço. E não, os angolanos não fazem isso por simpatia ou homenagem a Portugal. Estão a defender o que é deles. O que honra ainda mais Portugal, claro.

A independência de 1975 foi conseguida pela luta armada, começada em 4 de fevereiro de 1961. Algumas dezenas de patriotas, com poucas e más armas de fogo e catanas, e nenhum com treino militar, atravessaram de madrugada os subúrbios luandenses. Passaram por dezenas de casas, onde viviam comerciantes ou portugueses pobres, nos musseques Sambizanga, Lixeira ou no Bungo, bairro já perto do porto, e nenhum branco civil foi atacado, morto ou ferido, sequer molestado. Os sublevados atacaram a Casa de Reclusão Militar e a cadeia da 7.ª esquadra, onde havia independentistas presos. Do lado português foram mortos um cabo sentinela e seis polícias.

Há um debate entre os historiadores angolanos sobre se o ataque foi dirigido pelo MPLA ou pela UPA, dois partidos independentistas. Em Portugal haveria assunto mais interessante a estudar: naquela madrugada, um massacre de civis portugueses poderia ter ocorrido, era fácil. Mas não aconteceu. Um mês e meio depois, nas fazendas de café no Norte, nas províncias do Uíge e Kwanza Norte, centenas de brancos, mestiços e contratados bailundos, etnia do centro, foram massacrados por locais. Em 15 e 16 de março, aconteceu uma jacquerie, uma insurreição camponesa, cega e terrorista. Mas a 4 de fevereiro, em Luanda, aconteceu um levantamento político, sem desvio da intenção política de atacar, e só, esquadras e quartéis (nas horas seguintes, os nacionalistas foram apanhados à unha, alguns estavam escondidos nas condutas de água das barrocas luandenses e muitos foram mortos).

Quatro anos antes, em 1957, o escritor Albert Camus, francês nascido em Argel, que acabara de ganhar o prémio Nobel, homem de liberdade e de justiça, insurgiu-se contra os métodos terroristas da FLN, a frente nacionalista argelina que punha bombas nos elétricos de Argel. Camus, nessa imprecação, falou em nome da mãe, que vivia em Argel. Os insurgentes do 4 de fevereiro provavelmente não ouviram Camus nem, no seu combate valente e limpo, agiram por causa dele. Mas haveria ali, no seu tipo de ação, alguma coisa de família. Angola - as sociedades luandense e a benguelense em particular - levava muito tempo de misturas.

Aqueles tasqueiros dos musseques, brancos, eram por vezes pais de famílias angolanas. E aqueles que não eram bebiam numa tradição em que o outro não era simplesmente o inimigo. Houve trocas antigas. Quando a relação de forças o permitiu, era entre iguais. Quando a rainha Jinga - dos reinos do Ndongo e de Matamba, de língua kimbundo, da principal etnia da região a que pertence Luanda - foi recebida pelo governador João Correia de Sousa, em 1621, como este estava sentado, mandou pôr um súbdito de quatro para também se sentar. A imagem, que está no museu de Jamestown, na Virgínia, apesar da sua violência deixa sempre os afro-americanos orgulhosos.

O alentejano António de Oliveira de Cadornega, que desembarcou aos 15 anos em Luanda, nesse século XVII, escreveu a História Geral das Guerras Angolanas e conta as guerras como elas são, homens de armas, lado a lado. Conta que, com os portugueses refugiados em Massangano, depois dos holandeses terem conquistado Luanda, lutaram o chefe António Dias Musungo, angolano negro, e as suas tropas. Sete anos depois, em 1648, Luanda foi retomada. Os holandeses também tinham aliados negros, mas os portugueses tiveram mais: ficaram ainda 300 anos.

E, desde então, abrindo os horizontes das trocas: foi uma armada brasileira, comandada pelo governador do Rio, Salvador Correia de Sá, que reconquistou Luanda. Sim, esse que deu o nome ao liceu onde andaram Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos. Contemporâneo de Cadornega, em Luanda, foi o poeta baiano Gregório de Matos, um dos maiores da nossa literatura barroca. Satírico (era conhecido como o Boca do Inferno), ele narrou como a semente do português foi ficando em Luanda: "Aqui onde o filho é fusco/ E quase negro é o neto,/ Negro de todo o bisneto/ E todo escuro..."

Cadornega conta a retirada do governador Pedro César de Menezes, depois da tomada de Luanda pelos holandeses, em 1641. Menezes sobe o Quanza e refugia-se em Massangano. A caminho, ele fica na libata (sanzala) do cristão--novo português Francisco Mendes de Carvalho, no Icolo. Dessa região é o escritor e nacionalista negro, que morreu no ano passado, Agostinho Mendes de Carvalho. Este estava preso a 4 de fevereiro de 1961, durante o ataque dos seus companheiros às prisões de Luanda.

Mendes de Carvalho foi mandado para o Tarrafal e estava lá preso quando o jovem Roberto Leal Monteiro desertou do exército colonial. Mestiço, neto duma cabo-verdiana e filho duma cabinda, foi combater na guerrilha do MPLA, no Leste angolano. Em 1975, Leal Monteiro foi o comandante que expulsou as tropas zairenses que invadiram Angola. Quando vem a Portugal, ele visita a campa, em Coimbra, do tio Luís Gonzaga, irmão do pai. Luís Gonzaga, negro e muito mais escuro do que o sobrinho, foi o capitão português mais condecorado da I Guerra Mundial e foi fundador da Força Aérea Portuguesa.

Ah, onde é que estávamos? Sim, Angola faz 40 anos de independência. E segue o seu caminho. Portugal devia estar orgulhoso das muitas tangentes e secantes que fez com este grande país.

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