Retrato do artista enquanto rico e triste

Ferreira Fernandes

Quando eu queria ser grande, era ser Didi, José Águas e Mário Coluna. Tirando o lado muito pessoal e identitário (continuar no meu mundo mestiço), eu queria ser um grande artista, discreto mas enorme, reconhecido pela multidão. Ser feliz, enfim. Por isso, esta semana, eu recearia ser garoto. Arriscava-me a gostar de vir a ser Jorge Mendes.

Em fotos da passada terça (hoje publicadas por El País), o célebre empresário de futebol português está no centro da fotografia da assinatura dum contrato de futebol, sorridente como os abençoados. Pudera, acaba de ganhar, com um só jogador, a comissão sobre 42 milhões, depois de outra, no ano passado, sobre 35 milhões... À volta, só gente feliz com guito, do patrão do Guangzhou FC, clube chinês, à corte de 7 intermediários.

Mas na foto há, ainda, o artista. Reconhece-se, pela tristeza imensa dos olhos, Jackson Martínez, dum trio colombiano (com James e Radamel Falcao) que brilhou no FC Porto e partiu para conquistar a Europa. Pois, Jackson acaba de dar à praia em Guangzhou (deveríamos chamar Cantão), onde o futebol, apesar de milionário, tem a qualidade do praticado, não desfazendo, em São João da Pesqueira. Os título podem dizer: "Jackson Martínez vai ganhar 12,5 milhões/ano - o 5º maior salário do futebol mundial", mas a notícia é a tristeza.

Pensando bem, com a notícia e as fotos, os garotos mais subtis talvez continuem a querer vir a ser futebolistas quando forem grandes. Algum fascínio há de ter o futebol, para, apesar de tanto dinheiro dar, ainda ensombrar o olhar do artista que sabe, desapossado da arte, ter vendido a alma.