América: 2018 anuncia um mau 2020

Para lá do que disseram os números - republicanos conservaram a maioria no Senado e democratas ganharam a Câmara dos Representantes - dois factos políticos maiores marcaram as eleições de ontem. Trump foi o dinamizador desta campanha do Partido Republicano; e no Partido Democrata surgiu uma miríade de novas caras. De um lado, um líder. Do outro, as duas primeiras congressistas muçulmanas, as duas primeiras ameríndias, mais hispânicos, mais jovens, mais negros...

Nos Estados Unidos, estas eleições chamam-se de midterm, de meio de mandato, mas elegem para um mandato inteiro a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes e um terço dos senadores. O termo "meio mandato" não indica, pois, o que vão ter os eleitos de ontem mas o facto destas eleições serem realizadas no meio de um mandato presidencial - a dois anos dele acabar. Então, aquela relevância dupla que ontem ficou sublinhada - no campo republicano, Trump, e no democrata, a emergência de políticos das minorias - não deixará de ter consequências para as presidenciais de 2020.

Hoje de madrugada, Trump tuítou com o seu exagero habitual: "Enorme sucesso esta noite". Pouco antes, o Tweet presidencial citara o comentador Ben Stein, que falara assim de Donald Trump, o assunto preferido do atual hóspede da Casa Branca: "Este tipo [Trump] tem magia a sair-lhe pelas orelhas. Os republicanos têm um sorte incrível em tê-lo. É toda a magia de Trump - Trump é mágico".

A dois anos das presidenciais, dos democratas têm vindo acenos do velho mundo: Kerry, Hillary e Biden... Velho mundo para tão conturbados dias.

Descontando a alucinação de alguém que escolhe frases destas sobre si próprio, as bizarras fórmulas de Stein falam de um facto: ao contrário de 2016, quando aceitou, que remédio!, o candidato Trump (neófito no partido, com linguagem pouco conservador e algumas causas repugnantes), o Partido Republicano, para a próxima, em 2020, estará coeso por trás do seu seguro de vida. Coeso e sob um programa que será o imposto por Trump.

Eis o que não mostra o campo oposto. No midterm, a dois anos das presidenciais, dos democratas têm vindo acenos do velho mundo: John Kerry, Hillary Clinton e Joe Biden, dois antigos secretários de Estado e um ex-vice-presidente sonham com a Casa Branca... Velho mundo para tão conturbados dias. As prometedoras novas estrelas, Beto O'Rourke, Andrew Gillum e Stacey Abrams, o primeiro para senador (Texas) e os dois outros para governadores (Florida e Geórgia), perderam, ontem.

O somatório de tão variadas novidades democratas na Câmara de Representantes assinala, sim, um interesse maior das minorias pela política. Mas isso serve para se ganhar em circunscrições, onde a bandeira da minoria pode ser eficaz. Ora um candidato presidencial, que é do que o Partido Democrata mais precisa, expressa uma vontade nacional, capaz fazer soma das minorias, não ser a expressão de uma delas (Obama ganhou porque nunca foi o candidato dos negros).

2018 anuncia um mau 2020: Donald Trump sequestrou o Partido Republicano e o Partido Democrata é por enquanto uma manta de retalhos. Resumindo, a política, isto é, o pensamento e a gestão da coisa pública conduzida para o bem comum, saiu ontem muito derrotada. Sendo a América ainda o que é, é grave.

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Em Portugal, há recorrentemente espaço televisivo para políticos no activo comentarem notícias generalistas, uma especificidade no mundo desenvolvido. Trata-se de uma original mistura entre comentário político e espaço noticioso. Foquemos o caso mais saliente dos dias que correm para tentar perceber a razão dessa peculiaridade nacional. A conclusão é que ela não decorre da ignorância das audiências, da falta de especialistas sobre os temas comentados, ou da inexistência de jornalistas capazes. A principal razão é que este tipo de comentário serve acima de tudo uma forma de fazer política.