A trampa que pensou que sou Trump

Hoje, alguém me tomou por Donald Trump, vocês sabem aquele boquirrota com alcatifa na testa. Enganou-se. Sou galopantemente careca assumido e falo dos outros com respeito. Exceto quando o perco, o respeito. Como é o caso com o canalha que insultou um homem sério entrando na caixa de comentários da minha crónica de hoje ("Ah, já sabiam? E não fizeram um escândalo?!").

Ontem à noite, Donald Trump estava em campanha numa cidade de New Hampshire. De repente, do palco, disse: "Ela acaba de dizer uma coisa terrível!", e apontou para uma mulher que na sala havia gritado. "Sabem o que ela disse?", perguntou à multidão. E provocou a tal mulher: "Grite mais alto porque não quero ser eu a dizer!"

Até os fãs de Trump têm algum pudor e, por vezes, não gostam de descer ao nível em que ele costuma chafurdar. Protestaram, não queriam que ela falasse. Mas o candidato não queria perder a oportunidade de mais um exercício de linguagem vadia: "OK, eu proíbo-a de o dizer. Ela disse que Ted Cruz é um pussy [tradução suave: "um mariquinhas".]

Armado em rémora, um tal Diogo Mendes entrou na minha caixa de comentário e tentou lançar lama sobre um homem sério e respeitado. Este nunca precisou de ninguém que o defendesse. Eu é que preciso, pois fiz o papel de alguém que arrasta lixo atrás de si. Preciso de dizer que o que se agarrou à minha crónica decente tem tanto a ver comigo como a porcaria que por vezes se cola aos meus sapatos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.