A dúvida que o Papa Francisco lançou

O Papa Francisco ter admitido que a Igreja Católica já permitiu métodos contracetivos só é novo por ele ter nomeado "o grande Paulo VI". Francisco referiu que isso sucedeu quando freiras estavam em risco de ser violadas, em África. Os jornais por todo o mundo relacionaram com os casos de violações no ex-Congo Belga, no princípio dos anos 60. Mas a evocação precisa que se chequem alguns factos.

Nas vésperas da independência daquele país africano e no ano seguinte, em 1960 e 1961, houve relato de vários casos de estupro de religiosas no Congo. Ora, Paulo VI só foi eleito Papa em meados de 1963... Mais tarde, em 1964, na revolta dos simbas, também no Congo, a imprensa internacional narrou outros casos de violação de freiras, na cidade de Stanleyville. A ser correta ter sido Paulo VI a decidi-lo, só poderia ter acontecido então.

A Igreja Católica já ter permitido o uso de meios contracetivos artificiais - o que a encíclica Humanae Vitae (de 1968 e do... Papa Paulo VI) proíbe - tem sido bastante discutido e admitido, inclusivamente por teólogos oficiais católicos. Quando da guerra na Bósnia, na década de 90, onde também religiosas foram vítimas de violações, o caso da "pílula do Congo" foi lembrado.

Em 1993, numa entrevista ao semanário católico Il Sabato, o padre Ivan Fucek, croata e professor na Universidade Gregoriana, em Roma, recordou: "(...) nós damos crédito às notícias de que, nos anos 60, o Papa concedeu às freiras o recurso à pílula, no ex-Congo Belga, pois foram vários os casos de religiosas violadas nesse país africano." Confirma-se de que país se fala: o Congo (Kinshasa). Mas fica vaga a data exata: pode ser 1960/61 ou 1964, com a importância que já vimos para se determinar de que Papa se fala. E também fica-se sem o nome deste: Fucek só disse "il Papa".

Ainda em 1993, o padre Giacomo Perico, na revista dos jesuítas Civiltà Cattolica, confirmou que o Vaticano permitiu o uso de contracetivos, "no começo dos anos 60", quando freiras estavam em risco de estupro. Isto é, só confirmou o que dissera o Ivan Fucek na entrevista que, aliás, cita. Mas, no seu artigo, o padre Perico cita também um debate na revista Studi Cattolici, publicado em 1961. Sob o tema "Come negarsi alla violenza", discute-se o que devem fazer as mulheres sexualmente molestadas.

Nesse debate participam três teólogos eminentes: Ferdinando Lambrushini, da Universidade de Latrão, Francisco Hürth, da Universidade Gregoriana de Roma, e Pietro Palazzini, então nomeado pelo Papa João XXIII para a preparação do Concílio Vaticano II, e que virá a ser cardeal. Os três são favoráveis ao uso de contracetivos em caso de violência, como "meio de legítima defesa". O futuro cardeal Palazzino defende a pílula anticoncecional (como lembra a revista científica The Lancet, num artigo em dezembro de 2011). E o padre Hürth faz explicitamente referência a freiras: "(...) o ato de uma freira (ou de uma qualquer mulher) tomar a pílula contracetiva é uma defesa antecipada contra o iminente violador."

Temos, assim, que importantes teólogos da Igreja Católica, em 1961, debateram e defenderam o uso da pílula, relacionando-a com as violações de freiras, como as que, então, aconteciam no ex-Congo Belga. E um deles, Pietro Palazzini, era um próximo do então Papa João XIII...

Esta semana, pela primeira vez, um Papa, Francisco, referiu o nome do Papa que teria permitido, em casos extremos, o uso da pílula. Ele disse ser Paulo VI, que por, por paradoxo, é o autor da encíclica que proibiu o uso de meios anticoncecionais artificiais. É certo que poder invocar a Humanae Vitae, clara e exata na sua proibição, ajuda a manter a coerência quando se está a modificar um pouco a doutrina. Por causa do perigo do mosquito Zika, o Papa Francisco teve o bom senso e a coragem de fazer entorse à proibição. Mas é dever dos jornalistas perguntar ao, justamente, mais amado e popular dos Papas: se foi mesmo Paulo VI a decidir a "pílula do Congo", quando foi e como?

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