A assunção na crista da onda é legítima

Um dia, um jornalista assim-assim fez um romance medíocre e de tanta falta de vaidade fez uma ambição: "Quero ser Nobel." E, agora, o nosso fim de semana político andou à volta de outra ambição proclamada: "Eu vejo-me como primeira-ministra", disse Assunção Cristas numa entrevista que marcou todo o congresso do CDS, em Lamego. Há ambições boas e más, e nelas as diferenças podem ser dramáticas. Não as confundamos, às ambições. Aquele jornalista é tolo, mesmo se um dia for Nobel haveria de ser recordado, em chacota, que um dia ele disse que queria ser Nobel. A ambição dele, mesmo realizada, era uma irrealidade. Já Cristas, se um dia for primeira-ministra, veremos, nesse facto, um facto. A sua assunção na crista da onda é ambição difícil mas possível. Quando a direita, ferida pelo sucesso do governo de Costa, preparava as eleições autárquicas, os outros dirigentes esconderam-se mas ela desafiou o posto mais difícil, Lisboa. E agora, no congresso, Cristas mostrou mais virtudes. Voltou-se para o passado, sublinhando a utilidade da referência: homenageou um sábio da nossa política tão desapossada de sabedoria, Adriano Moreira. Voltou-se para o futuro, reconhecendo a necessidade da qualidade: reafirmou o papel de Adolfo Mesquita Nunes, um dos raríssimos profissionais da política que, fosse esta empreendedora, teria todos os outros partidos a querer contratá-lo. E, num partido conservador, Cristas pôs uma imigrante, a brasileira Nádia Piazza, como cidadã da sociedade civil, a participar no programa do CDS. Enfim, se um dia for primeira-ministra, não acontecerá um impossível, mas um improvável. E, por isso, só cairá bem à Assunção Cristas tê-lo previsto.

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