E se Donald Trump me obriga a pagar o que aprendi com ele?

O jornal The Washington Post publicou ontem um artigo com este título: "O mundo está a olhar para a América - e a aprender o que não deve fazer". Pronto, apanharam-me. Ando a tentar aprender, à escuridão que tem sido esta campanha americana, o que não se deve fazer. Alinhei já umas ideias, seja o que for que aconteça na próxima terça: um suspiro de alívio ou um susto. É que, mesmo não ganhando agora, Donald Trump, ou outro canalha por ele, voltará. E, ganhando, tenho um receio suplementar: que me obrigue a pagar o que aprendi, como ele quer que os mexicanos paguem o muro.

Lições aprendidas, então. A questão fundamental política, hoje, não é determinada por esquerda versus direita, progressistas e conservadores, mais ou menor Estado. É respeito pelo outro. A relação de forças encarregando-se de só os fracos serem vítimas, fizeram-se normas para os fortes respeitarem. Houve tempo em que se pensou estar isso conseguido - não evidentemente em toda a prática, seria ingenuidade pensar que quem tem poder não atropela se tal lhe convém. Vejamos um caso português, o do ex-ministro Miguel Macedo que foi recentemente filmado e exposto ao público a ser interrogado por juízes, uma vilania de fortes (magistrados e jornais) sobre um homem indefeso. Julgava-se adquirido que era mau, feio e punível fazê-lo. Mas foi feito e deixou-se andar.

Ora Trump subiu um degrau nessa vilania: gaba-se da misoginia, insulta deficientes, incita a turba contra jornalistas, promove frases racistas, claras e deliberadas. Já não se esconde o abuso: e este, exprimindo poder, vai passar a ser respeitado. Donald Trump é o apóstolo dessa revolução em marcha. A lição é: estar atento aos filhotes, por cá, deste ovo da serpente. E não, não se olhe só para um lado do espectro político, nem tão-pouco só para a política.

Nunca mais encolho os ombros com as Teresas Guilhermes e afins. Não basta não ver. Quando se expõe gente ordinária e ignorante, abusados por exploradores de carne, está a degradar-se a paisagem humana pública quanto um velho camião sem catalisador no tubo de escape polui a Avenida da Liberdade. E não basta que os pobres-diabos consintam, também anões consentiam entrar nos concursos de lançamento. Mas não chegam leis, nem estas são o mais importante. É preciso um sobressalto cívico que mostre o nosso repúdio pelo cinismo de estações televisivas com aqueles pobres-diabos. Trump começou a construir-se líder nacional dizendo com gozo: "Estás despedido." Despedir é antigo, desde que houve quem empregou outro. Mas mostrar que se gosta de despedir é recente e abre um mundo novo. O do sem respeito gabarolas.

O sucesso (que já o tem, ganhe ou não) de Donald Trump medrou no deixa-andar, social como o do parágrafo anterior, e da prática política que ainda não se deu conta dos tempos modernos. Esconder pecadilhos (o nosso ridículo exemplo das falsas licenciaturas) é desconhecer o advento da internet. É que não é só uma questão moral, é que tem de ser, mesmo - não há como fugir à devassa. Desarmar o aldrabão dos negócios multimilionários começa por acabar com a prática generalizada de pequenos abusos. Aproveito a campanha americana para insistir: em Portugal, que conta os tostões, ainda há chefes de gabinete públicos com motorista diário?

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