Desconfie mais, desconfie melhor

No ano passado falei aqui dos rapazes meus vizinhos, nas Torres de Lisboa, onde é a sede do DN. E também da Yupido, a milionaríssima empresa dos tais rapazes. Lamentei então a minha falta de visão. Eu devia ter-me cruzado com os rapazes, talvez no café do bairro. E, como sou razoavelmente soberbo com os remediados mas gosto de ser gentil com os muito ricos, poderíamos ter entabulado conversa, podia ter pintado um clima... E hoje eu seria o biógrafo autorizado do Torcato, do Filipe ou de qualquer dos outros sócios da Yupido. Como disse, falhei o encontro e a ocasião de lhes fazer saber a minha derretida admiração - não os conheci, repito, mas eles não podiam ser senão admiráveis.

Como os sabia eu admiráveis? Pela mais numérica das razões: a Yupido tinha feito um aumento de capital que avaliou a empresa deles em 28 768 199 972 euros. Para fazerem uma ideia mais exata do que isso é: muito! Um muito composto de uma pequena parte com cinco algarismos (35 000 euros) em dinheiro, e o resto num comboio de onze algarismos a que eles chamaram bem intangível: um software de gestão e uma plataforma digital. Esse resto intangível, oh quanto!, até então não fora capaz de tanger as cordas de uma guitarra para mandar cantar um cego, foi avaliado no tal aumento de capital pelos próprios jovens. E avalizado por revisores oficiais de contas.

Quando dei por eles, aos rapazes, já eles eram meus ex-admiráveis e até meus ex-vizinhos. É que estalara um escândalo: afinal, todos aqueles milhares de milhões eram uma leve ideia. Reduzidos a 35 mil euros em contado, os meus ex-vizinhos passaram a remediados e eu, homem de princípios, bloqueei-lhes a minha admiração. Ainda pensei passar parte desta (a boca aberta que há em todas as admirações) para os revisores oficiais de contas que avalizaram leves ideias - fascinava-me a fama de chatos conjugada com a sua realidade de líricos - mas desisti. Também eles são de um país de poetas, portugueses comuns, enfim. Lamento dizê-lo, mas os portugueses comuns são vulgares, não têm nada que ver com um Bill Gates o galego da Zara. Gente com um não sei o quê, talvez sensibilidade, que me deslumbra.

Estava eu ainda com a desilusão proporcionada pelos rapazes da Yupido, quando me surgiram novos números mágicos. Sou leitor da imprensa especializada (A Bola, Record, O Jogo...) que me forma sobre as questões da alta finança: Cristiano, Messi, Neymar... Esses jornais dizem-me tudo sobre a dúvida essencial: quanto? Foi lá que comecei a ler o que depois transbordou para outros jornais: o futebolista mais rico do mundo é Mathieu Flamini, que joga no clube espanhol Getafe. Quanto? 30 mil milhões de euros era quanto valia a fortuna de Flamini. Vocês já me conhecem, fico de cabeça perdida com histórias à volta desse valor, a última tinha sido de 28 768 199 972 euros, que com uns trocos é exatamente o mesmo do Flamini.

Tudo começou com o jornal desportivo espanhol As, uma espécie de Financial Times mas a sério, que em fevereiro fez uma reportagem com o Flamini que assinara pelo Getafe, depois de meses desempregado. O jornal soube que ele era dono da GF Biochemicals, uma empresa de biotecnologia, que aposta no ácido levulínico que, como sabemos, é a alternativa para o petróleo. O As disse que o médio, há pouco desempregado, do 9.º classificado do campeonato espanhol, tinha uma fortuna de 30 mil milhões! Comparem com o pelintra do Neymar que só foi vendido por 200 milhões e ainda teve de pagar ao agente... Pelo mundo dispararam títulos sobre o Jeff Bezos dos relvados. Flamini, o futebolista que ganha mais do que o plantel do Barcelona....

O problema foi o azar do Távoras que persegue tudo à volta de 30 mil milhões. Flamini não é dono, mas sócio; na sua área, a GF Biochemicals não é única, há mais; quem vale 30 mil milhões é o mercado potencial; e, sobretudo, o ácido levulínico substituir em parte o petróleo é, por enquanto, um... isso, um bem intangível. Talvez um dia. Hoje, o que há, é que um ricaço russo investiu 7 milhões de euros na GF Biochemicals mas ainda não houve um cêntimo de lucro. Se o Getafe se atrasa no ordenado, o médio Flamini arrisca-se a ter de aceitar um convite do Benfica do Ribatejo.

Até aqui, repare o leitor, temos um padrão, eu, um ser humano que gosta de notícias que lhe passam a mão pelo pelo: fascinam--me os ricos. Entre os adeptos de fake news, até estou bem protegido, dado o meu fascínio específico pelos números mágicos à volta dos 30 000 000 000. Caramba, sempre são números e a matemática não é uma batata, não se podem manipular como construir uma carreira política baseada na invenção de que Obama não nasceu no Havai. E, no entanto, não é que engulo a isca e o anzol sempre que me acenam com 30 mil milhões?

Decidi, pois, ter cuidado com o que leio ou oiço. Não me deixar embalar por "olha, esta notícia dá-me jeito", meio caminho andado para me espalhar nas falsidades da vida. Outro propósito que decidi adotar: recusar o cinismo de que tudo é falso. Cabe-me procurar boas fontes. Se gosto de números, factos, descobertas, ler qualquer coisa como a maravilhosa última página da americana Harper"s Magazine, a secção Findings. Cada mês, o autor, Rafil Kroll-Zaidi (1980, Nova Deli), alinha descobertas, quase sempre quantificadas, uma frase para cada uma...

Seguem-se exemplos. "As crianças afro-americanas são duas vezes mais do que as crianças de outras raças mal diagnosticadas como violentas antes de o ser como autistas"... "Aqueles que acreditam num mundo justo são mais propensos a se comportar de maneira desonesta"... "Na Grã-Bretanha, apenas 17% acreditam nos políticos, enquanto 94% confiam nas enfermeiras e 64% confiam no homem na rua"... Sabem o que me dão essas frases? Muitos talvez. E uma vontade de as discutir. E uma agradável sensação de que o autor quis exatamente isso.

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