De repente, Antero Henrique...

Como os cafés que se inauguram nas ruas pobres, porta-sim, porta-não, asfixiando-se, os programas televisivos de futebol suicidam-se mutuamente nos nossos domingos à noite. Os já clássicos da SIC Notícias (Play Off), TVI 24 Horas (Desporto 24) e RTP3 (Trio de Ataque) são agora disputados por mais do mesmo na TVI, em canal aberto (Futebol Mais), CMTV e Sport TV... Desporto que é só futebol; futebol que é só Benfica, FC Porto e Sporting; três grandes que só são tricas entre os três. Em estúdio, conversetas longas de duas horas.

Se é assim, essa concorrência assanhada é porque é do que as pessoas gostam. Certamente há estudos de mercado, análises de audiência, pesquisa. As televisões são caras, é vício que tem de ser sustentado por maiorias, ali não há mecenas. Então, simples consumidores, como este que aqui assina, que se calem. Ou, em casos extremos, que manifestem a sua perplexidade.

Foi o caso, para o passado domingo. Entrou-me em casa um personagem de quem, confesso, só tinha uma leve ideia: Antero Henrique. Entrou de forma inevitável: o meu zapping saltava mas também ele, de um canal para outro. Em todos, ele era apresentado como o grande patrão do futebol portista, enfim, no sentido possível quando existe um Jorge Nuno pairando sobre o futebol portista. Mas, em todo o caso, tão importante era Antero Henrique que, de patrão tendo passado a ex-patrão, passou a unanimidade na discussão nacional.

Ora, além dessa notícia básica - patrão que passou a ex - tudo o mais, em tanto canal, era nebuloso. Imagens poucas. Interpretações contraditórias: inimigo ou amigo de Jorge Mendes? Passado vago: uma década de braço-direito de Pinto da Costa. Futuro incerto: Chelsea?...

A questão é: que ele era importante, era. Ninguém manda no FC Porto, mesmo em nº 2, sem ser importante. Mas se era assim tão importante - a ponto de ocupar tanta hora em tanto canal - deveria ter-se cuidado mais da informação aos telespectadores, antes, quando o seu poder era imenso. E, já agora, os comentadores deveriam estar armados sobre o assunto "Antero Henrique" mais do que mostraram todos estar. Sobre a política Assunção Cristas, o professor João Lobo Antunes ou o escritor Rui Zink - qualquer deles nunca podendo aspirar a tanto tempo de antena - um especialista vulgar saberia dizer mais e melhor.

O que dá para voltar aos cafés de bairro. Não, nascerem tantos não é consequência duma imanente e sábia lei do mercado que fará uns sobreviver e outros, não. Eles brotam pela lei do menor esforço - vão derrotar-se uns aos outros. Os programas televisivos de desporto que se cuidem também: serem tantos pode ser que não seja por estar a dar. Pode ser, só, por estarem na moda as baratas tontas.

Exclusivos