Cavaco sai muito bem do livro que escreveu sobre si

A partir de cinquentão, qualquer pessoa sabe que as memórias recentes são menos fiáveis do que as antigas. Como os computadores, apagamos mais depressa a memória RAM, a de agorinha, do que a memória ROM, de longa duração. Infelizmente, Cavaco Silva preferiu escrever sobre seus recentíssimos tempos de Presidente e não os de acionista privilegiado do BPN. No segundo tomo de Quinta-Feira e Outros Dias, de Cavaco Silva, livro apresentado esta quarta-feira ao público, alguns episódios só têm três anos.

Perdemos, pois, a possibilidade de saber mais sobre um mistério interessante e até hoje inexplicado, o do BPN, onde da antiga memória armazenada se poderia esperar uma sinceridade porque, enfim, o que lá vai, lá vai. Ganhámos, perdendo, o contar de acontecimentos tão demasiado frescos que leva qualquer um a pintá-los de forma gloriosa. Ou, porque um autor não foge à sua idiossincrasia, de forma mesquinha: pintar os outros com sobranceria.

Assim, ficamos a saber que quando, em Belém, recebeu Passos Coelho, impedido de formar Governo, Cavaco disse ao ex-primeiro-ministro: "Tem boas razões para estar de consciência tranquila e sentir mesmo um certo orgulho pelo trabalho realizado." Leram? Consciência tranquila... Sentir mesmo um certo orgulho... Ficam explicados aqueles cantos de boca descaídos com que Passos Coelho partiu pela vida fora. Comedidos elogios destes fazem suspirar por um pontapé quando se é despedido.

Partido o macambúzio, entrou António Costa, "um homem de sorriso fácil", decretou Cavaco. O quão fácil ficou explicado assim: "Um artista da arte de nunca dizer não." Reparem, na política comum, não fechar portas, a arte de nunca dizer não, é mais do que uma qualidade, é um ter de ser. Não fossem os leitores supor alguma simpatia, o memorialista acrescentou: "Um artista na arte..." Ganda artista me saíste, Toino, dir-se-ia num balcão do Bairro Alto. E ainda dizem que Cavaco é incapaz de ser coloquial.

A lenda de que raramente teve dúvidas, frase que o próprio já duvidou que alguma vez tenha dito, fica definitivamente enterrada na Quinta-Feira e Outros Dias: por várias vezes, Cavaco diz ter duvidado da geringonça. Mas, posta ela em andamento, ele não se enganou, teve logo a certeza de que ela "completaria a legislatura." Ao contrário de Passos, que Cavaco diz que ele lhe disse que a geringonça não ia durar.

Enfim, certezas (acertando, o narrador, errando, o outro) que são para se pegar com pinças: porque se Quinta-Feira e Outros Dias pode ser criticada por sair demasiado cedo, publicada a 24 de outubro de 2018, e a um ano das próximas eleições, é tardio adivinhar que o Governo chegará ao fim. Mas, está bem, saiba-se que Cavaco diz, em 2018, que em 2015 já ele sabia o que todos sabemos em 2018.

A páginas tantas, Cavaco diz que António Costa, numa das primeiras reuniões deles depois das legislativas de 2015, lhe disse que queria "salvar o PS." E que ele, Cavaco, sobre isso, viu a coisa com desdém: para António Costa "ser primeiro-ministro era uma condição necessária para se salvar a si próprio como líder do PS." Na Quinta-Feira e Outros Dias conhece-se essa firme, venenosa e corajosa resposta do ex-Presidente da República. Se o leitor se apressar a comprar o livro amanhã, terá a oportunidade de conhecer essa resposta antes do primeiro-ministro. É que em 2015 Cavaco Silva só pensou a tal resposta, mas guardou-a para si. Talvez, gentilmente, para nos dar a primazia.

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