Carta a um habitual do Restelo

Já contei esta história mas, esta semana, Pacheco Pereira pediu-me (acho, se calhar estou enganado) para voltar a contá-la. No dia 1 de maio de 1974 cheguei à fronteira de Vilar Formoso vindo de um exílio de cinco anos. O comboio vinha cheio de jovens como eu, e menos jovens, todos arrebatados (muitas bandeiras vermelhas e negras nas janelas, atravessando a Espanha ainda franquista), mas não sabíamos bem o que nos esperava. O comboio parou e na minha carruagem entraram dois tipos fardados de Guarda Fiscal. Disse o mais velho: "Fiquem sentados, um de vós recolha os passaportes de todos e traga-mos." Fui eu quem se levantou e cumpriu a ordem. Dois dias antes muitos de nós tinham ocupado o consulado-geral em Paris e obrigámos o cônsul a fazer-nos um passaporte. Tínhamos emigrado ou exilado a salto, sem esse documento.

As dezenas de passaportes da minha carruagem eram como o meu, novinhos em folha. Mas um amigo, o Fernando Santos Neves, que dava aulas na Universidade de Vincennes e tinha sido padre e entrado em França com passaporte, sussurrou-me ao entregar o seu: "Está caducado..." Ingénuo, meti-o no meio dos outros, que cheiravam, pareciam e eram novíssimos. Entreguei o molhe ao polícia mais novo. Com olho profissional, ele foi direito ao velho passaporte, abriu-o e mostrou-o ao colega: "Está caducado." O outro deitou um olhar breve e disse: "Mas não está muito caducado." Ausente de Portugal há anos, dez minutos depois de voltar e sem ainda pisar solo nacional, eu fiquei a saber que Portugal tinha, mesmo, mudado.

Entretanto, algures no norte de Portugal e lá tendo vivido já o 25 de Abril, o jovem José Pacheco Pereira - militando também numa organização antifascista - tentava perceber a natureza da revolução de abril. Ora, considerando que era ainda prematuro saber se o fascismo recuperaria em breve, ou não, ele achou que era sábio continuar na clandestinidade. Isso quando eu estava no comboio e já convicto (talvez demasiadamente afoito, ou não) de que tudo mudara. Fiz bem, passei o ano mais empolgante da minha vida. Ano que José Pacheco Pereira, analisando a natureza dos acontecimentos, gastou imerso na clandestinidade.

Isto para vos dizer que eu gosto da ciência histórica de Pacheco Pereira - que bons são os seus quatro volumes sobre Cunhal - mas quanto a ele perceber o que o rodeia, isso... Bom sobre o passado, ele, o meu admirado JPP, quando toca a realidade à volta, é um cegueta. Por causa de um erro de análise, passar encafuado um ano glorioso, que desperdício. Pois ele, esta semana, decidiu augurar um rápido fim ao DN. Basicamente, ele disse: "O DN acabou." Eu aprenderia certamente muito se ele tivesse escrito sobre Eduardo Coelho, o fundador do DN, há 154 anos. Tipógrafo e intelectual e inventor de um jornal que foi um admirável modelo de negócio, Coelho era um belo perfil para o historiador inteligente e isento. Mas não, Pacheco Pereira atirou-se à atualidade, a sua fraqueza tradicional.

Há 30 anos, 1988, eu estava algures no deserto do Calaári, sob a asa de um avião militar angolano. Eu e umas poucas dezenas de jornalistas de vários países. O nosso avião tinha aterrado numa pista não longe da fronteira namibiana. Há vários anos que o mundo separado em dois prolongava a Guerra Fria, não exatamente naquelas paragens desérticas mas mais a norte, nos campos de batalha do leste e norte de Angola. De um lado, as tropas do governo do MPLA e as cubanas, apoiadas pelo bloco soviético; do outro, as tropas dos rebeldes da UNITA, apoiadas pela África do Sul e os Estados Unidos. A chusma de jornalistas não tinha vindo para ver o cascalho e a areia amarelada, que era só o que nos rodeava. Nem uma só Welwitschia mirabilis, um milagre de dramáticas folhas verdes a gritar sequidão - planta única no mundo - se deixava ver e justificar a nossa presença.

Uma primeira explicação era outro avião estacionado perto, e que chegara antes do nosso, trazendo militares e políticos angolanos e cubanos. Outra explicação era a grande tenda militar, centenas de metros a sul, que víamos como uma miragem ondulante desde que o calor começou a apertar. As delegações angolana e cubana já lá estavam há horas e, pouco depois, um comboio de carros, vindo da Namíbia, foi direito também à tenda. E nós aguardando, sem saber o quê. No dia anterior, em Luanda, a 1300 quilómetros de distância, haviam-nos convocados para algo importante. O quê? Que esperássemos. Era o que fazíamos, porque o interior do avião era um forno, sob a asa do avião. Um colega angolano contava anedotas luandenses e ríamos em várias línguas. E esperávamos.

Um jeep veio da tenda e contou-nos: acontecera um acordo. As tropas cubanas iam abandonar Angola e a Namíbia ia ser independente. O apartheid ia acabar e a África ia mudar. Todos os jornalistas souberam tudo e logo. Mas só um, o repórter do The New York Times, abriu uma maleta, tirou uma parabólica e mandou a notícia. Eu e todos os outros esperámos por Luanda, a três horas de distância. O presente tecnológico já existia, mas tive de esperar 30 anos para poder realizá-lo: dar prioridade à edição digital.

E, quando o faço, Pacheco Pereira anuncia-me morto. Daqui a um ano, se ele continuar errado, e se os grupos Cofina e Sonae para os quais ele escreve (Sábado e Público) concluírem erradamente que Pacheco Pereira não vale o que ganha, farei tudo para que ele escreva no DN. Afinal, para ele ser muito bom, basta convidá-lo a não escrever sobre a atualidade.

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