A Minha Crónica Pessoal da Revolução Cultural

Não vou falar-vos de Xu Xing, o grande paleontologista, o maior caçador de dinossauros do mundo ou pelo menos das pegadas deles. Vou falar de outro Xu Xing, também chinês mas caçador das suas próprias pegadas. O cientista ainda não tem 50, o outro, o meu, é escritor e documentarista e faz 60, neste ano. Diferença pequena mas importante para o tipo de pegadas que o escritor caça: ele já tinha 10 anos quando a Revolução Cultural começou e 20 quando ela acabou (1966-1976). Quando agora falamos dos maoistas (por causa da data redonda, 40 anos da morte de Mao Tsé-Tung), estamos a falar dos maoistas da Revolução Cultural. Um momento histórico que foi uma tragédia para os chineses e uma alucinação para uma geração mundial.

Um dia, em 1971, ou 72, em Paris, convidei para jantar um jovem camarada chegado da clandestinidade do Porto. Eu e ele militávamos num grupo esquerdista, O Comunista, ainda não pró-albanês ou maoista, como viria a ser pouco depois, mas já bem à esquerda, contra o "reformismo" do PCP. O jantar foi no quarto que fazia de minha casa, e da minha namorada, ela, trotskista - os leitores mais novos ou com interesses na vida mais empolgantes, desculpem-me as catalogações aborrecidas.

O convidado, mais do que pelo bife, proletariamente divido em três, e a boa salada que preparei, interessou-se pelas estantes e as lombadas expostas no quarto. Na semana seguinte, fui expulso por "trotskismo", acusação que fez capa, julgo que do n.º 11, do jornal O Comunista. O processo foi sustentado na lista longa de livros do velho Leon Trotsky e de seus apaniguados nas minhas estantes.

Ter-me livrado do fascínio de Tirana foi o único favor que fiquei a dever ao maoismo. Ingrato, da primeira vez que visitei a Albânia, o país maoista da Europa, eu já era repórter e descrevi-lhe a capital logo na primeira linha: "Um albanês desembarca em Bissau e derrete-se de admiração: Eeeeh..."

Um pouco antes daquele meu jantar parisiense, Xu Xing escrevia, em Pequim, a sua primeira carta de amor. Tinha 15 anos e já vira em muitas noites o pai a escrever longas cartas de autocrítica para entregar aos Guardas Vermelhos. Razões para se autocriticar o pai trazia-as coladas à pele, pois, apesar de intelectual do regime, era filho de ricos do Nordeste chinês. Depois, os pais de Xing e os seus dois irmãos foram distribuídos pelos quatro cantos da China, para se curarem dos vícios burgueses. A mãe foi viver e exercer medicina numa gruta, nas montanhas de Gansu, no Norte, e levou-o. Com ele já adolescente, ela pôde reenviá-lo para Pequim, onde ainda tinham o apartamento.

Foi já na capital que ele a conheceu e entregou a carta. Na escola, ela já dera por Xing, tantas vezes ele estava de castigo a varrer. E ele apaixonou-se pela razão que algumas fotos de então explicam. Ela era bela, daquela beleza que faz andar à procura do fio e da tomada que a iluminam. A carta dizia o amor dele, à sua maneira: uma crítica cerrada ao que já vira e vivera. Só demonstra que era muito jovem, em épocas de tragédia só os inocentes falam assim. Ela mostrou a carta ao professor, o melhor deles, a quem os jovens se podiam confiar. O professor denunciou o rapaz e ele foi preso por 46 dias.

Eu vi-os aos dois, nesta semana, estavam eles trinta e tal anos depois do seu primeiro encontro. Eu vi-os em A Minha Crónica Pessoal da Revolução Cultural, um documentário de Xu Xing à procura das suas cicatrizes, filmado em 2007. Passou na RTP2, muito, muito obrigado. Ela veio de Los Angeles, para onde tinha emigrado - está sempre bela. Tem aquela elegância que em tempos de bruxas ou de luta exacerbada de classes é perigoso expor. Felizmente, já não estamos em tempos assim mas continua doloroso ouvi-la dizer: "Sempre achei que te denunciei." Ele põe-lhe as mãos nos ombros, ela encosta a cabeça ao peito dele e parte pelo corredor do aeroporto.

Xu Xing é um dos grandes escritores chineses. Em 1985, andava por um restaurante de pato lacado a varrer - a vassoura como que se lhe colou ao destino - e escreveu Variações sem Tema, um sucesso internacional. Depois tornou-se documentarista, mostrando o que viveu. Stendhal passeou e viveu pouco, teve de inventar Fabrice, em A Cartuxa de Parma, para contar a batalha de Waterloo. Xu Xing esteve no olho do furacão e vai ter com gente com quem se cruzou.

Por exemplo, aquele homem que fez uma canção que os pioneiros cantavam quando partiam para o campo para aprender. Os camponeses desprezavam-nos, eram jovens de olhar iluminado mas pouco produtivos - a gamela, já escassa, tinha de ser mais partilhada. Os cantos oficiais eram heroicos, como que iluminados pelo Sol vermelho no horizonte. Mas havia aquela canção que chorava a cidade e os pais deixados para trás... Os Guardas Vermelhos prenderam o autor burguês de palavras sem foice nem martelo - ele e Xu Xing fumam muito e falam, em 2007, sobre esse dia que os apanhou juntos, em plena Revolução Cultural. Vão à prisão do músico, está abandonada.

O realizador deve ter pedido ao amigo para fazer rolar o portão da prisão, o músico tenta, mas logo desiste, encolhe os ombros. Lá dentro ele vira homens de joelhos, ouviu um tiro por cada um, e voltou a ver um gesto de perna, empurrando e desobstruindo para a vala. É tão sem sentido a história quando lhe dá para espasmos epiléticos. E são tão importantes os paleontologistas que não o são.

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