A Catalunha, nós todos, na véspera de...

No dia 10, o presidente do governo da Catalunha declarou a independência. Ou não. Ou não porque Carles Puigdemont, oito segundos depois de declarar a independência, suspendeu-a. E deu prazos a Madrid para discutir o facto consumado (ou não) da independência suspensa. Senão... Então, o presidente do governo de Espanha, Mariano Rajoy, exigiu a Puigdemont uma resposta clara: declarou ele a independência, sim ou não?

Exigência seca. Mas com a astúcia de abrir uma escapatória, como Rajoy explicou: Madrid contentar-se-ia se a Catalunha marcasse novas eleições autonómicas. Deu também um prazo para a resposta: ontem, às dez da manhã. Às 09.50, chegou uma carta de Puigdemont dirigida ao "Apreciado Presidente Rajoy". Cordato. No entanto, a carta não falava de marcação de eleições. Cortante. Em todo o caso, a carta era dúbia sobre o sim ou não de Puigdemont ter já declarado a independência. É verdade que o catalão não dizia que não a tinha declarado - como Rajoy gostaria de ouvir. Mas também não dizia que a tinha declarado - como Puigdemont gostaria de reiterar. Diplomacia, pois. Porém, a carta ameaçava com o voto de declaração formal de independência pelo Parlamento catalão. Paf!

Apesar de ameaçadora, a ameaça era apresentada com cautelas. Dizia-se sobre esse tal voto, essa decisão de rutura: "O Parlamento da Catalunha poderá proceder, se o julgar oportuno..." Poderá... Se o julgar oportuno... Enfim, talvez, quiçá, quem sabe... Ou, como se diria tão belamente em catalão: potse. E a carta, antes da assinatura, acabava sem um "grande abraço" ou um "sem mais", mas a meio-termo, assim: "Atentamente". Suficientemente educado, bastante frio.

Recebida a carta, Mariano Rajoy disse que amanhã, sábado, o seu Conselho de Ministros irá acionar o artigo 155 (tão perigosamente parecido com o nosso antigo número de emergências, 115) da Constituição espanhola. Quer dizer, os direitos do Estado autónomo serão suspensos, para se repor a legalidade constitucional. A partir daí não há volta a dar... Perigoso, não? Não para já. Porque o a partir daí não começa bem, bem no sábado: nesse dia, o governo invoca o artigo 155, mas este ainda tem de ser aprovado pelo Senado espanhol, coisa que dá uma folga de dias, talvez semanas. Resumindo, dez dias de "agarrem-me, senão mato-o", entremeados de "vamos lá com calma". E promessa de se continuar mais um pouco assim.

Eis o resumo até ontem daquilo que ainda não sabemos como catalogar: Guerra Peninsular ou Jogos Florais Aquém-Pirenéus? Para já ficamos felizes por podermos começar a pôr em causa um preconceito sobre Espanha - a da Guerra Civil e dos touros de morte. Afinal, ela já é outra coisa. Este processo é tão brando que mais parece português. Madrid e Barcelona pegam-se de cernelha. Por enquanto.

Por enquanto os nãos demasiado afirmativos são sempre seguidos de uma pequenina porta aberta. Acontece como num embate entre polícias inteligentes e manifestantes prudentes, quando nenhuma das partes encurrala a outra num beco sem saída: porque, aí, mesmo solitário, o fraco pode responder com uma violência inesperada. E basta a possibilidade do "pode" para não se espicaçar a hipótese...

Este jogo que se iniciou com a convocação unilateral do referendo organizado pelos independentistas já trazia em si o anúncio de que podia descarrilar. O referendo falsificado dos separatistas e a repressão policial do governo central foram prenúncio de um desastre. Mas, apesar de abusos, não correram de forma a já estarmos perante uma situação irremediável. Nem a Catalunha cindiu nem há mortes a lamentar. Aquele ridículo momento de Carles Puigdemont declarar a independência e suspendê-la de seguida abriu o ciclo de hesitações que é narrado nas linhas atrás. Benditas hesitações, podemos por enquanto dizer, mas com a angústia, que é um sentimento de temor pelo que vem a seguir.

Entretanto, hoje, em Oviedo, serão entregues os mais prestigiados prémios europeus, os da Princesa das Astúrias. Se o resumo do diálogo dos últimos dez dias entre Rajoy e Puigdemont pode ser estudado como um esperto trajeto em corda bamba, neste ano, o Prémio Princesa das Astúrias na categoria de Concórdia (há outras: de artes, de comunicação, de investigação científica...), esse, o mais político dos Princesa das Astúrias, devia ser ele próprio premiado: foi a melhor premonição 2017! Anunciado em junho, Espanha galardoou a União Europeia. E a cerimónia realiza-se hoje... Há quatro meses, muitos se interrogaram do porquê de premiar a UE, ela que não soube prever e resolver o brexit, ela que nem tem sabido concordar os seus membros na crise dos refugiados...

Ora, do ponto de vista espanhol, foi uma jogada de mestre a médio prazo: em pleno conflito separatista, Espanha vai ter em Oviedo os líderes das instituições da UE, Jean-Claude Juncker, da Comissão Europeia, Donald Tusk, do Conselho Europeu e Antonio Tajani, do Parlamento Europeu. Eles vão receber um prémio espanhol e entretanto premeiam Espanha: ontem, em Bruxelas, o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, fizeram questão de garantir a Rajoy que a política europeia é pela unidade de Espanha. Não será por falta de costas quentes que a vontade de Espanha esfriará.

Os erros de cálculo político por parte dos chefes independentistas são clamorosos. Com que mais podem eles contar senão com a política? A pergunta não é retórica, porque há mesmo algo mais do que a política, esta entendida por negociações entre as forças políticas (os partidos todos de Espanha) e também as relações de força internacionais - nestas estando a Catalunha em desvantagem. Há, sim, algo mais: a violência. Mas, com esta, toda Europa, incluindo a Catalunha, está em desvantagem completa.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG