Ferreira Fernandes

Premium "Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Rosália Amorim

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Ricardo Paes Mamede

Premium  Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

João Gobern

Orlando Costa, anticolonialista

No domingo publiquei a entrevista que o primeiro-ministro deu ao DN antes de partir para Angola. Eu quis saber o que significava para ele, António Costa, essa visita a uma ex-colónia. E descrevi, por laços familiares, essa ligação, dizendo de um goês que nasceu em Moçambique, o seu pai Orlando Costa, "que é um filho do império português e foi um anticolonialista." Na entrevista, gravada, a minha formulação foi essa: "um filho do império português e anticolonialista."

Ferreira Fernandes

Obscurantismo e sobrevivência

Não há dúvidas nenhumas que as alterações climáticas são evidentes (R. Trigo, Climatólogo, Univ. Lisboa; D. Notícias, 29.07.2018). No entanto, os governantes (mundiais, nacionais e regionais) não só ignoram o fenómeno, como até o favorecem com decisões economicistas. Aliás, já Eça de Queiroz referia, nos finais do século XIX, a promiscuidade político-financeira, por exemplo nos Maias ("E como Carlos lembrava a Política, ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio atacara o constitucionalismo como uma filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por traz lhes puxavam pelos cordéis..."). Talvez por ser uma obra politicamente tão inconveniente, foi, praticamente, retirada do Ensino Secundário.

Jorge Paiva

A falta que um McCain faz

Uma das imagens mais repetidas quando John McCain morreu foi aquela em que, num comício, uma apoiante sua diz que tem medo do candidato Obama porque ele é árabe e McCain abana a cabeça, tira-lhe o microfone da mão e afirma, perante uma plateia que queria ouvir tudo menos isso, que não, que Obama não é árabe, que é "um homem decente (...) de quem discordo em muitas coisas". Antes disso, a outro apoiante que tinha dito que tinha medo de um presidente Obama, o então candidato republicano já tinha explicado o mesmo. O momento é importante porque diz tanto de McCain como do que nos habituámos a aceitar em política. E das virtudes que fazem falta. Decência é uma delas, mas a coragem de fazer o que se deve e perder, se for preciso, também. Mas dando a cara.

Henrique Burnay

Isto sou só eu a especular

Achava que no FMI de José Mário Branco se falava de especulação, e fui reouvir e reler a música à procura disso mesmo, para falar aqui sobre a especulação imobiliária. Mas não, a memória prega-nos partidas destas, temos a certeza de que sim, mas ficamos com a certeza de que não quando confrontamos certeza e realidade. Mas fiquei com uma certeza que já tinha e fiz outra: a produção intelectual em reação à crise de 2011 e o memorando da troika, todos sabíamos, era coisa de pouca densidade, mas constatei agora que também nas artes assim foi. Porque nada cultural oriundo do contexto antitroika chega aos calcanhares do FMI de 1982 do José Mário Branco.

João Taborda da Gama

Premium Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.

Rogério Casanova

Um triângulo de ambições

A inquietante crise do globalismo, sobretudo na medida em que impossibilita o regime de paz geral cuja efetivação foi confiada a instituições de jurisdição mundial, a começar pela ONU, vê-se agravada com os chamados "neonacionalismos", por vezes "micronacionalismos" quando implicam a fratura da unidade de um Estado. Mas embora este fenómeno exija atenção constante pelos efeitos negativos que deixa prever, ou que até anuncia, está em curso um novo desafio, talvez mais preocupante quanto à anarquia das relações internacionais que pode provocar. Trata-se de coincidência temporal da proclamação de Trump no sentido de "Make America Great Again", de Xi Jinping pretender "realizar a grande renovação da Nação chinesa", e de Poutine, ao declarar que a sua fronteira geográfica é inferior à sua fronteira de interesses, invocar a "Grande Rússia".

Adriano Moreira

Hoje apetece-me fazer de ardina

Nos anos 1940, os ardinas apregoavam em certos dias, ao vender o jornal República: "Fala o Rocha! Hoje fala o Rocha!" Era a homenagem de garotos quase analfabetos, armados, e bem, em fazedores de manchete. O homenageado era Rocha Martins, jornalista de pena afiada e o gosto pela liberdade que levava-o, sendo monárquico, a escrever num jornal titulado República. Rocha Martins escrevia com o que se chama de estilo e pertence àqueles raros que têm voz única.

Ferreira Fernandes