Vale a pena rir

Uma semana a discutir Fidel. Se foi ou não um grande homem. Se era ou não um ditador. Se bons sistemas de educação e saúde compensam ausência de eleições e media livres, partido único, presos políticos, fronteiras fechadas, repressão. Uma semana a ver gente alegar que no fundo (ou à superfície) a democracia é relativa. Que tudo é relativo.

De facto, a discussão pós-morte de Fidel é bem ilustrativa disso. Vimos, por exemplo, um ror de gente à direita a denunciar furiosamente o carácter ditatorial do regime cubano; deputados do PSD a protestar contra a ordem da direção da bancada para se absterem nos votos de pesar. Onde andaria esta revolta contra a repressão quando se votaram no parlamento, em março deste ano, os textos de BE e PS condenando a prisão de 17 angolanos (incluindo o luso-angolano Luaty Beirão) por lerem um livro, e que PSD, CDS e PCP chumbaram? Onde andava toda esta valentia democrática quando o ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Passos disse, em ipsis verbis da tradicional posição do PCP sobre regimes "amigos", que se tratava de "uma matéria interna de Angola"? Onde estavam estes arautos da liberdade quando houve manifestações e abaixo-assinados e sessões públicas pela libertação dos ativistas, quando Luaty fez greve de fome, quando esteve na solitária, quando os 17 foram condenados a prisão efetiva?

É fácil chamar torcionário e cleptocrata a Fidel. Não há empresas portuguesas compradas por cubanos nem dezenas de milhares de portugueses a viver em Cuba. E, no entanto, sabemos muito mais sobre o que se passa em Angola, sobre a miséria do povo, os desmandos do governo, a riqueza da oligarquia e a falta de liberdade que ali se vive do que sobre Cuba. Temos de saber: é por medo que calamos.

Calhou ser nesta mesma semana que Luaty Beirão, entretanto amnistiado (amnistia que está a contestar na justiça, por disputar a legalidade da sentença), viesse a Lisboa apresentar o seu diário do cárcere; calhou que tenha como título Sou Eu Mais Livre, Então. Sorridente e bem humorado (e saudável e com boas cores, aleluia), Luaty falou do que viveu como se fosse a coisa mais banal e menos heroica do mundo. Agradeceu até aos que, aqui, foram a manifes, assinaram petições e escreveram umas coisas como se não fosse o mínimo, o básico, o elementar.

No fim, aproximei-me. Para dizer a única coisa que posso dizer a alguém disposto a morrer ou a gastar a vida na prisão pela democracia e pela liberdade: obrigada. Obrigada, Luaty. Porque não é só Angola que tentas libertar - é também a nós, encerrados nesta cupidez cobarde e racista de quem acha que democracia não é para África, neste ressabiamento colonialista do "bem feita". "Vale a pena rir porque acabou bem", disseste sobre a tua prisão. Vale a pena rir, sim, Luaty. E também do Portugal que se inflama a discutir Fidel e a Dos Santos diz nada. E pedir desculpa por (te) valermos tão pouco.

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