O missionário de Mação

Foi muito boa, a entrevista de Carlos Alexandre à SIC. Dos recados, dos ajustes de contas, da provocatória afronta ao dever de reserva e ao poder disciplinar da classe, da evidência de que não confia na Justiça para fazer justiça já muito se falou. Menos se frisou o facto de em nenhum momento este juiz de instrução, que supostamente serve para zelar pelos direitos dos arguidos, ter falado disso, de direitos. Pelo contrário: apresentou-se como herói da luta contra o crime - castigador, incompreendido, perseguido, ameaçado e mal pago. Um herói que, incensado como "super", não consegue disfarçar o azedume - raiva, até - por "numa casa grande" (um tribunal superior?) o apelidarem de "saloio de Mação". Um herói que se diz sem medo mas não aguenta gozos. Que precisa de se justificar, engrandecer e santificar, frisando as origens humildes, exibindo a religiosidade, detalhando as perseguições, escutas, ameaças e problemas de saúde dele e família numa espécie de "olhem lá como sou coitadinho mas aqui estou firme no meu posto sem me queixar (enquanto me queixo)".

Nesse sentido, do que revela, a entrevista é muito boa - mérito do entrevistado, porém. O juiz tinha um guião para o que queria dizer e disse-o - em certos momentos até repetiu para não haver dúvidas, como quando afirmou não ter "amigos pródigos" e a seguir reforçou: "O saloio de Mação (...) não tem dinheiros em nome de amigos, não tem contas bancárias em nome de amigos". Ante isto, que toda a gente interpretou como referindo o processo Marquês, ouvimos alguma questão, mais que não fosse "está a falar do processo Marquês?" Nada. Aliás, o juiz queixou-se do princípio ao fim de ganhar mal e nem quanto aufere lhe foi perguntado - cerca de 3000 euros limpos mais 620 euros, também limpos, do "subsídio de habitação", o que, convenha-se, faz da lamúria um show de mau gosto. Mas não ficou por aí: em notável demonstração de rigor, chegou a comparar o que ele, funcionário, ganha num turno de sábado com o que recebem os tradutores chamados ao tribunal, usando o suposto valor líquido para si (depois de impostos, Segurança Social, ADSE, etc.) contra o ilíquido de uma prestação de serviços. E afirmou terem sido os juízes os mais lesados nos cortes da função pública - quando só pode estar a referir os 20% retirados ao subsídio de habitação (era, em 2010, de 775 euros), um privilégio que só a judicatura detém.

Na verdade, pintando-se como "bicho-do-mato" espartano e devotado missionário, Carlos Alexandre revelou-se antes obcecado com a sua imagem, dotado de apreciável pendor demagógico, notório espírito de casta e total ausência de sensibilidade social - e senso. A lembrar Cavaco, quando em 2012 se queixou de não ganhar para as despesas. A esse, porém, logo se mandou à cara quanto auferia; o então PR caiu a pique nas sondagens e não recuperou. Mas, claro, era um político. Carlos Alexandre não, é sério. E pelo bem. Podemos estar descansados, a Justiça está em boas mãos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG