Paulo

Há poucas coisas tão emotivas como o silêncio de um cortejo fúnebre entrecortado por palmas, um cortejo fúnebre em que a maioria dos rostos não esconde o espanto doloroso de não saber o que fazer de tanta perda. O que ontem fez o trajeto do Rivoli até à Igreja da Lapa, no Porto, ao longo de quase uma hora, foi desses. Alguém me disse que foi dos mais impressionantes das últimas décadas; não sei, não saberia comparar. Para mim, foi um dos mais impressionantes porque era de um amigo, e ver um amigo assim celebrado, tão justamente celebrado, comove. Muito.

O Paulo. Já gastámos quase todas as palavras para o descrever. Genial, fulgurante, desconcertante, estimulante, alucinante; senhor de um pensamento e de um discurso únicos, impetuosos, acrobáticos, funâmbulos, de uma alegria e energia que pareciam, até anteontem, inesgotáveis. Catarina Portas foi a mais certeira, sendo a mais concisa: "O meu amigo mais parecido com um cometa." Durante a missa - a longa missa em que foi, esdruxulamente, apelidado de "professor doutor", como se o nome não bastasse, e na qual o oficiante preferiu saudar em primeiro lugar as "individualidades" presentes, deixando para o fim a família e omitindo dela uma das pessoas mais importantes, Miguel Sequeira -, citou-se Mário Cláudio, que falou de "relâmpago". Os relâmpagos iluminam em fragor e espanto, é certo, mas pouco. Os cometas atravessam o espaço com a velocidade das estrelas cadentes, num rasto de luz e partículas que permanece e cintila as trevas.

O Paulo permanece: foi isso mesmo que Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto, cujo notável discurso encerrou a cerimónia, quis garantir. "Em linguagem comum, o Paulo morreu. Mas o Paulo não morreu." E não morreu, disse, porque só morrerá se a cidade - que na voz do autarca era o Porto mas pode ser qualquer lugar de civilização, comunidade, país, mundo - deixar, se deixarmos. Se aquilo que ele soube criar e suscitar nos outros, a vontade de mais, de muito, de grande, de desmedido, a certeza de que (e é de novo Rui Moreira a falar) "a cultura não é um luxo, não é um bem leviano que se propague naturalmente e que só é importante em tempos de abastança - é um dos bens fundamentais da cidade", não se perderem.

No limiar que estamos de - talvez, a ver - um novo começo, não havia nome mais certo que este, Paulo Cunha e Silva, para estender ao país todo a revolução que incitou no Porto. Tínhamos todos, mesmo os que nunca ouviram falar dele ou, tendo ouvido, não o souberam reconhecer, esse direito: o de ser assombrados, seduzidos, conquistados por tanta inteligência, tanta generosidade, tanta alegria, tanta esperança - essa única forma, como ele disse, de frequentar o futuro. Vamos ter de o frequentar sem ele, agora. Não é fácil, mas valha-nos a sorte de ter, a indicar-nos o caminho, um cometa assim.

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