O MEC é fodido

Um monárquico de direita a tirar o tapete aos irredutíveis da "liberdade de expressão", dizendo-lhes que têm de pensar mais e abusar menos da pachorra dos outros. Olé.

Creio que se alguma vez tive um guru foi o Miguel Esteves Cardoso. Comecei a lê-lo, teria 15 ou 16 anos, no semanário Sete, onde assinava uma coluna intitulada Bolas para o Pinhal. Foi uma epifania. A forma como escrevia, a ironia, o sarcasmo, as coisas de que falava, não só me fizeram perceber que havia formas de dizer e pensar diferentes de todas as que conhecia como me desvendou, com António Sérgio, o desaparecido radialista do Rolls Rock/Som da Frente, o mundo que seria o meu. Disse-me que não estava só, que havia mais gente por aí com o mesmo gosto, os mesmos desejos, a mesma estética e a mesma noção de que isso era também uma ética.

Portugal é pequeno, Lisboa ainda mais mas nunca conheci o MEC. Nunca troquei sequer, que me lembre, uma palavra com ele. Primeiro porque era muito importante para mim e porque muitas vezes não sabemos (ou eu não sei) o que dizer a alguém assim, e depois porque a partir de certa altura me desencantei. Achei que tinha perdido a graça, a verve, a revolução e subversão, que se tornara cópia de si próprio, ainda para mais - já na fase em que escrevia para o Expresso, ainda antes de fundar O Independente - reacionária. Somos cruéis com os nossos ídolos, sempre; o amor é cruel. Ou fodido, como diz MEC no título de romance mais divertido da literatura portuguesa.

Sim, este introito é uma espécie de expiação, um tributo (que corre até o risco de embaraçar o seu destinatário; desculpe, Miguel). Mas depois de ver o episódio 12 de Fugiram de Casa de Seus Pais, o programa da RTP em que MEC contracena com Bruno Nogueira, tinha de ser. Neste, emitido a 20 de fevereiro, Nogueira introduz (aos 13 minutos e 20) o tema do politicamente correto, no tom derrisório que a maioria dos humoristas portugueses usa sobre o assunto: "Tem supostamente de se escolher muito bem o que dizer porque qualquer coisa que se diga é potencialmente ofensiva para qualquer pessoa." MEC responde: "O politicamente correto é a antiga boa educação." E prossegue: "E é sempre um avanço. Esse cuidado que temos de ter agora é aquela coisa de perguntar: como é que quer que o trate? Isso é o mínimo e é uma coisa antiquíssima. O que está errado hoje é querer impingir que é uma coisa nova." Nogueira contrapõe: "É muito fácil a pessoa ser catalogada como racista ou homofóbica pela escolha de palavras errada, hoje em dia." A resposta deixa o humorista interdito: "Ser corrigido já é uma grande generosidade. Porque têm mais que fazer." Quando Nogueira tenta argumentar que talvez a correção seja uma forma de tentar encontrar ocupação (tipo: "querem é aparecer"), MEC perde a paciência: "Eh pá, temos obrigação de educarmo-nos a nós próprios sobre as coisas, sobre as minorias, etc., temos de pensar, saber o que é ser branco, de ser privilegiado por ser branco. Quando ando num carro ninguém pensa que o roubei, percebes? É mais fácil arranjar trabalho, é mais fácil nos restaurantes, é mais fácil tudo. Esse é o trabalho do dito politicamente correto, que é dizer: "É branco, é privilegiado, é burguês..." Saíram-me todos os trunfos. A minha vida é ultrafacilitada. Não sou deficiente, etc. (...) Pá, é questão de injustiça. As pessoas arranjam muitos nomes, mas é injusto que para uma pessoa sendo negra seja mais difícil arranjar trabalho." Nisso estamos de acordo, apazigua Nogueira (em quê, ao certo?), mas MEC avança para o golpe de misericórdia: "Por exemplo, lembro-me de que também levei muita pancada quando disse "os portugueses" em vez de "portugueses e portuguesas"..." Parêntesis aqui para contextualizar. Numa crónica no Público de fevereiro de 2017, intitulada "Calem-se!", MEC escrevera: ""Portuguesas e portugueses" não é apenas um erro e um pleonasmo: é uma estupidez, uma piroseira e uma redundância que fede a um machismo ignorante e desconfortavelmente satisfeitinho. Somos todos portugueses e basta." Agora, na conversa com Nogueira, admite que estava errado: "Depois de muito pensar compreendo que seja castrante. Já mudei de opinião." Em desespero, Nogueira ainda tenta: "E coisas como haver cartão de cidadã e de cidadão?" Quanto mais neutro em relação ao género, melhor, atalha MEC. Cabisbaixo, Nogueira regressa ao argumento das prioridades: "A minha posição em relação a esse tipo de coisas é que acho que se focam nas coisas que podem chamar a atenção mas não necessariamente nas coisas que são fundamentais." Sem dó, MEC acaba a faena: "Sim, mas chama a atenção para o facto de os homens terem mais poder que as mulheres. Nós beneficiamos disso. Usar a língua como sendo masculina para neutralizar é mau. Eu percebo que se diga "portuguesas". É desgendrar a língua. Por exemplo, arquiteto: falta sempre um neutro como em certas línguas. É arquiteto, arquiteta e depois um neutro que fosse arquitetes."

Não é qualquer pessoa que é capaz de admitir assim, com tal naturalidade e autoridade, que pensou muito e percebeu que estava errado. E ainda por cima em relação a algo de que grande parte da sua base de apoio de monárquico de direita (era assim que se definia, será que ainda é?) e referência dos humoristas nacionais só consegue falar chalaceando e desconsiderando e humilhando. É preciso ser muito livre, e querer muito ser justo e verdadeiro. É preciso não querer saber de aplausos nem de popularidade nem de capelinhas, nem sequer de ter ou não graça. É isto ser MEC. Aprendamos - quem consiga ao menos tentar.

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