Fazer figas

Já me tinha esquecido de que era isto que nós queríamos, logo a seguir ao 25 de Abril." O meu amigo tem 55 anos. Estamos a falar da ideia da maioria de esquerda: "Mas como estes anos todos não foi possível, nunca mais pensei nisso." Creio que há muita gente na situação do meu amigo. Eu própria. Confesso que quando vi Jerónimo a fazer o primeiro anúncio de disponibilidade achei que só podia ser truque. Que era o velho PC, sonso, a afetar disponibilidade que nunca teve, para melhor culpabilizar o PS - afinal, não foi ao PS que, desde o início da democracia, elegeu como figadal inimigo? E quanto ao BE - o BE inchado pela melhor votação de sempre, o BE cheio de ambição de ser o Syriza, o BE estupefacto com tão espantosa recuperação depois de nas autárquicas e nas europeias ter visto toda a gente decretar-lhe o fim - não sabia o que pensar (saberia o próprio BE?). Só a determinação do PS parecia indesmentível, por estar numa posição em que, de uma forma ou de outra, nunca será poupado à responsabilidade de viabilizar um governo.

Mas os dias foram passando. E reencontrei em mim, como nas pessoas à minha volta, a capacidade da esperança. Envergonhada, medrosa, a disfarçar (é muito mais sofisticado e seguro ser cínico), mas esperança. Pessoas crescidas com sorrisos tontos, infantis, comovidos, a darem-se licença de acreditar, a darem-se licença de entusiasmo.

Sim, há qualquer coisa de lírico, de romântico até, nesta possibilidade (sim, a esquerda é romântica - e ainda bem). Um lirismo reforçado pela raiva irracional, desesperada, pateta e patética, que vinda da direita acolhe a ideia. Mas, claro, não chega o lirismo. É preciso aquilo que faltou sempre à esquerda do PS - com exceção do Livre, esse caso extraordinário de, como afirma José Adelino Maltez, "ter razão em tudo" mas não conseguir passar a mensagem para o eleitorado. É preciso princípio da realidade. É preciso ter a coragem de perceber, como diz Marisa Matias, que se o poder sem princípios não serve para nada, os princípios sem poder também não. Que é agora que vivemos e não nos amanhãs cantáveis, e é agora que é preciso encontrar soluções justas, viáveis, realistas. Que é preciso ter a coragem de não ser puro.

E, ao mesmo tempo, é preciso, da parte do PS, a coragem de saber que se não for possível assegurar um acordo sério e duradouro - e desde o início me pareceu má ideia que BE e PC não estivessem representados no governo, no barco e não na margem, para que estejam plenamente comprometidos -, assumi-lo e explicar porquê. Pior que desenganar a esperança (que, reconheça-se, será muito mau e muito triste) é avançar sem um acordo seguro, assinado, ajuramentado; um acordo que não se desfaça ao primeiro problema, ao primeiro safanão da realidade, ao primeiro dilema governativo. Um acordo em que se possa confiar. Lembrem-se: esperámos tanto por isto que nos esquecemos de esperar. Não nos desiludam - mais uma vez.

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Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.