Carta a um pontapé

Escrevo quatro dias depois de te ter visto. É com perplexidade que reconheço que poderia nunca ter sabido de ti, já que os canais de TV que habitualmente sigo te ignoraram, e os jornais que leio, a começar por este em que trabalho, só te noticiaram porque houve um canal de cabo que te mostrou. Não fosse esse canal, que tenho por exemplo do que o jornalismo não deve ser, terias ficado clandestino, graças ao que, levaram estes dias a explicar-me, seria um nobre acordo de cavalheiros entre quem te desferiu, o vai para 40 anos assessor de imprensa do PSD José Mendonça (Zeca para todos) e quem levou contigo, o meu colega Paulo Spranger - porque o Zeca pediu desculpa ao Paulo, que aceitou as desculpas. E pronto, dizem-me: é circular, faz favor, não há mais nada para dizer.

Mas olho para ti e não vejo nada de cavalheiro, nem de nobre, nem de senhor. Ou por outra, vejo um senhor pontapé. Gratuito, deliberado, discreto, profissional - um pontapé de quem sabe dá-los. É o que se vê no corredor do hotel onde decorreu no domingo o Conselho Nacional do PSD: o Zeca, acompanhando Relvas, afasta-se dele e caminha, calmo e ligeiro, para Spranger, que está a fotografar Relvas. Pespega-lhe um pontapé e a seguir segura-o (para que não caia?). É o pontapé de um assessor de imprensa, no desempenho das suas funções, a um jornalista a tentar desempenhar as suas. É o pontapé do funcionário de um partido, o principal partido do Governo, a agredir fisicamente alguém ao serviço de um jornal - portanto, o jornal. É o pontapé de um membro do Conselho de Opinião da RTP - porque Zeca Mendonça é-o - a fazer algo que, além de constituir uma ofensa à integridade física, pode ser configurado como "atentado à liberdade de informação", punido com prisão até dois anos caso "o infrator for agente ou funcionário do Estado ou de pessoa coletiva pública e agir nessa qualidade."

É muito para ver num pontapé? Vindo de quem, na minha experiência profissional, sempre foi, além de eficiente, simpático? É. Diz Zeca que se descontrolou. Pois não vejo ali, em ti, pontapé, descontrolo nenhum. Pelo contrário: vejo um controladíssimo pontapé, a controlar.

"Um pontapé não define uma pessoa", garante, em procissão de elogios no Facebook do Zeca, um ror de gente, muita dela habitualmente inflamada contra "tentativas de controlo" e "asfixias democráticas". Em estando uma pessoa em causa, poder-se-ia discutir isso (aliás, resumir o caso a uma escolha entre linchar e perdoar Mendonça define bem aquilo a que chegou a nossa vida pública). Mas não está. Está um funcionário do PSD a zelar pela imagem do partido. Está a imagem do partido. E se o silêncio do PSD sobre o ocorrido mostra quão bem lhe vai este pontapé ao parecer (uma semana depois do discurso da pancada, até rima), o do jornalismo mostra que merece. Até à próxima, pois, pontapé.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.