Às tantas temos mesmo de queimar os soutiens

Desde crianças socializadas para enxertar no próprio olhar o poder masculino heterossexual, as mulheres são um corpo que não é seu.

Estava um calor de ananases. A tenista regressou ao court após uma pausa de dez minutos no jogo e percebeu que tinha posto a T-shirt ao contrário. Virou-se de costas para as câmaras, tirou a T-shirt e voltou a pô-la da forma correta. O gesto durou segundos, durante os quais se viu o top de desporto - mui pouco revelador, por sinal - que trazia por baixo. A seguir, foi advertida pelo árbitro de que tinha violado o código de conduta do jogo pelo seu "comportamento antidesportivo". Em causa estaria o ter "mostrado o soutien".

Sucedeu a 28 de agosto, com a francesa Alizé Cornet, no Open dos EUA. Os protestos, liderados por ex-estrelas do ténis feminino e pela própria Alizé, sublinhando que os homens tenistas tiram muitas vezes as camisolas no court sem que ninguém considere tal digno de comentário, levaram a direção do torneio a pedir desculpa à desportista, frisando que inexiste qualquer regra que impeça o que ela fez e que as tenistas podem mudar de camisola, tal como os seus colegas, nos intervalos.

Mostrar um top desportivo como "desrespeito das regras do desporto"? Parece estúpido de mais para ser verdade. Mas se isto sucedeu, imaginemos que Cornet ao fazer a troca da camisola não tinha um top por baixo. Não é difícil adivinhar a consequência. O peito de uma mulher, qualquer que seja a forma ou volume, é em regra considerado "sexualmente explícito". Cornet seria desclassificada por algo que os seus colegas fazem com a maior das naturalidades, sem que alguém considere que estão a "exibir-se" ou a ser "indecorosos".

Porquê? Sei o que quem me lê está a pensar: "Tem lá alguma coisa a ver o peito de um homem e o de uma mulher." Não tem? Qual é realmente a diferença? É que se fomos socializados, aculturados para achar diferente, não é motivo para não sermos capazes de perceber o quão a distinção é ridícula e danosa (e passível de debate legal, como se provou em 1992 em Nova Iorque).

Não vê o porquê? Continuemos nas regras vestimentares no desporto. Em 2011, a Federação Mundial de Badmington decretava: "As mulheres devem passar a usar saias e vestidos nas competições de topo, para terem um aspeto mais feminino e atraente para os fãs e para os patrocinadores." Perante a acusação de que a federação (que tinha na direção, em 25 membros, duas mulheres) estaria a tentar sexualizar as atletas, o então vice-presidente saiu-se com esta: "Só queremos que sejam mais femininas e tenham melhor aspeto para serem mais populares (...) O interesse no badmington feminino está a descer porque muitas jogadoras usam calções largos e calças compridas que quase as fazem parecer homens."

Palavras que fazem pandã com as do ex-presidente da FIFA Sepp Blatter, em 2004, quando defendeu que "as futebolistas deveriam usar calções mais justos para promover uma estética mais feminina" (14 anos depois, no último mundial de futebol masculino, a FIFA semirredimiu-se pedindo às TV que deixassem de procurar "as boas" no público).

"O interesse no badmington feminino está a descer porque muitas jogadoras usam calções largos e calças compridas que quase as fazem parecer homens."

Sim, parece contraditório: se no caso de Cornet estaria em causa "mostrar de mais", no das jogadoras de badmington e das futebolistas o problema seria "mostrar de menos". Mas são manifestações siamesas do mesmo problema: o da hipersexualização e objetificação do corpo das mulheres ou, o que é dizer o mesmo, a sua apreciação a partir do ponto de vista do poder masculino heterossexual. É essa lógica - a de que as mulheres são por definição um objeto do olhar desejante/lúbrico masculino, existindo como projeções, fantasmáticas e sem vontade própria, desse olhar - que determina estes episódios.

Ora é claro que os atletas masculinos são tão objetos sexuais como as atletas - a visão de um torso nu ou do desenho das nádegas de um homem bonito é igualmente de molde a suscitar, digamos, interesse. Mas nunca se ditou que os calções deles devem ser mais justos e curtos ou que devem jogar sem camisola. Porque o poder tem sido dos homens e as regras feitas à medida da afirmação e perpetuação desse poder.

Daí que sejam socializados para existir por direito próprio, para viver o corpo como seu, para olharem em vez de serem olhados, para desejar em vez de serem desejados, para agir em vez de serem "agidos". Ao contrário, as mulheres são-no para depender da apreciação e valorização de outrem, sentindo sempre sobre si, em perpétua vigilância, um olhar que julga. Um olhar enxertado no seu: desde crianças, aprendem a existir como corpo sitiado, expropriado por regras e vontades alheias - que ocupam mas lhes não pertence.

Qualquer dia de praia nos dá a ver a ilustração disso. Se o tempo é igualmente cruel com homens e mulheres, eles, por maior e mais flácida a barriga, por mais caídas as mamas, por mais pregueadas as costas, passeiam a sua decadência sem aparente preocupação, enquanto nas mulheres no mesmo estado se nota um óbvio cuidado no "tapar".

As consequências desta expropriação vão, é claro, muito para além das estúpidas regras desportivas aqui citadas ou da opção feminina por fato de banho "a partir de uma certa idade". Determinam toda a afirmação pública e privada das mulheres, a sua relação consigo, a sua autoestima. Como a atleta que tem de se ralar com o seu aspeto em vez de se concentrar exclusivamente na sua performance, estaremos sempre em inferioridade enquanto não combatermos isto a sério. Afinal, queimar os soutiens não era assim tão sem sentido.

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