Ao lodo o que é lodo

Cristiano Ronaldo agarrou num microfone do canal de TV do Correio da Manhã e mandou-o para o fundo de um lago. Crime, gritaram o presidente da Comissão da Carteira de Jornalistas e o CM. Este último vai também, fomos ontem informados, processar, por boatos e difamação, "as redes sociais".

Para a empresa que passa a vida a cometer crimes à vista de toda a gente, a difamar e publicar boatos e defende isso como "liberdade de expressão e informação", acusando de tentativa de "pressão", "censura" e "mordaça" quem a critique ou processe, pode afinal haver limites à liberdade de expressão. Ou se calhar acha que calúnia é produto da sua região demarcada. Quanto ao presidente da instância de auto-regulação dos jornalistas, a única com poder para punir quem atenta contra os respetivos deveres, deve ter acordado de coma profundo. Haver pessoas com carteira de jornalista a fotografar e filmar às escondidas, constituindo-se como assistentes em processos para poderem violar o segredo de justiça, a acusar disto e daquilo sem sequer tentar ouvir os acusados, a fazer imputações falsas e devassa da vida íntima, a pedir a constituição de arguidos, a passar áudios de escutas e vídeos de interrogatórios na TV; haver publicações que se especializam na violação de todos os preceitos deontológicos estatuídos na lei do Estatuto de Jornalista, que tem a Comissão da Carteira como instância fiscalizadora; tal nunca suscitou ao seu presidente um ai ou lhe deu motivos para instaurar processos. Arremessar um microfone é que não pode ser: essa parte do Estatuto, a que prevê como crime de "atentado à liberdade de informação", com prisão até dois anos, a apreensão ou dano de "quaisquer materiais necessários ao exercício da atividade jornalística", parece ser a única que a pessoa em causa, de nome Henrique Pires Teixeira, jurista e diretor do jornal regional A Comarca, conhece e valoriza.

Sim, é e deve ser crime atentar à liberdade de informar. O jornalismo é fundamental e deve ser protegido. O jornalismo. É em nome desse princípio, e das normas que regem uma sociedade civilizada, que há pessoas de bem a condenar o que Ronaldo fez. Têm toda a razão: numa sociedade civilizada, os conflitos resolvem-se "nas instâncias próprias". Mas numa sociedade civilizada os tribunais não estão mancomunados com os tablóides ou reféns deles (sabe-se o que sucede a juízes quando decidem em seu desfavor) e as indemnizações não fazem o crime compensar. Numa sociedade civilizada as instâncias de regulação não permitem que uma carteira profissional seja salvo-conduto para cometer crimes. Numa sociedade civilizada os jornalistas demarcam-se da contrafação jornalística. Numa sociedade civilizada, as pessoas de bem unem-se contra o mal.
Não vivemos numa sociedade assim. É isso que o espantosamente sereno gesto de Cristiano Ronaldo, devolvendo o logo da CMTV ao seu habitat natural, nos diz. E que, se nós nos conformamos, ele não. Valente.

(A autora tem um conflito judicial com a empresa do Correio da Manhã)

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.