A 'glasnost' do PCP

Há um efeito da aliança política que saiu das legislativas de há um ano do qual, desse eu conta, ninguém falou ainda. Trata-se da diferença de trato, disponibilidade e até de discurso de representantes do PCP no contacto com jornalistas.

Comecemos pelo princípio: é banal jornalistas terem o telemóvel de deputados e dirigentes partidários e contactarem-nos diretamente para pedir reações, informações ou para fazer entrevistas. Esta regra universal tinha uma exceção: o PC. Inúmeras vezes nas últimas décadas fui instada a "seguir o protocolo" de contactar assessores de imprensa, do grupo parlamentar ou da Soeiro Pereira Gomes, para serem eles a pôr as pessoas em causa em contacto comigo. Ou seja: não me eram, em regra, dados os números dessas pessoas, mas falava com elas através do telefone do assessor ou de uma ligação dentro da sede ou da Assembleia, e quando os pedia, respondiam-me, com algum embaraço, que era melhor falar com eles "daquela maneira". A dificuldade de comunicação, porém, não ficava por aí. Na maior parte dos casos a conversa não fluía, fosse qual fosse a abordagem, e as respostas eram chapa cinco. Havia uma espécie de reserva penosa, para não dizer antipática, do outro lado. Apetecia sempre desligar o mais depressa possível.

Pensei muitas vezes nessa atitude quando via o partido apresentar protestos por não ser convidado para debates ou comentários na TV. Protestos, aliás, nos quais tem toda a razão: não me recordo de alguém do PCP num espaço de comentário singular, semelhante ao que Marcelo, Marisa Matias ou Portas tiveram - e este vai voltar a ter - e aos de Louçã e Marques Mendes. Uma análise recente, do Laboratório de Ciências da Comunicação do ISCTE, concluiu que "O PSD tem 11 espaços de comentários fixos, o PS tem sete, o BE tem quatro, o CDS-PP tem três, o PCP e o Livre/Tempo de Avançar têm um cada", ou seja, os comunistas estão claramente sub-representados. Mas, se o partido adora descrever-se como voz silenciada e perseguida pelos desígnios maléficos do "capital", do "patronato" e do "sistema", a explicação é um bocadinho menos heroica: ouvir comunicados monocórdicos, vulgo cassetes, não interessa a ninguém, e foi essa a imagem que criou.

Ora algo mudou, e muito. Tive no último ano a grata surpresa de me ser dado o número de telemóvel de deputados e de ter com eles conversas desenvoltas e bem-humoradas, nas quais pela primeira vez (exceção feita a Odete Santos, que sempre foi acessível e "natural") tive a sensação de estar a falar com uma pessoa e não com um gravador. É genuíno? É tática? Tática que seja, acabará por ter efeito nos próprios: se deixamos de tratar alguém como nosso inimigo, acabamos por deixar de o ver como inimigo. E, como se viu há um par de meses na presença descontraída, alegre e adequadamente irónica de Rita Rato no Eixo do Mal da SIC Notícias, o PCP percebeu enfim que não se apanham moscas com vinagre. Ergam-se da bruma, ó clandestinos.

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