Um "Gatsby" para o público das "raves"

Se há uma coisa que me encanita são os filmes como O Grande Gatsby, que se gabam do rigor com que recriam a época em que decorrem (no caso, os EUA dos loucos anos 20, a "idade do jazz"), e depois não só partem o nariz julgando benzerem-se (nos planos aéreos de Nova Iorque vê-se o Empire State Building, só inaugurado em 1931), como também contemplam de propósito os anacronismos (o hip hop na banda sonora) em nome de uma qualquer "contemporaneidade", arruinando o efeito de época. O que virá a seguir, iPads nos westerns? O que O Grande Gatsby de 1974, com Robert Redford, tinha de inerte, reverente e académico, esta adaptação de Baz Luhrmann tem de hiperativo, berrante e postiço. É uma versão para a idade do excesso digital, do "patego-olha-o-balão-do-3D", da estilística vertiginosa e fragmentada dos clips musicais, para o público da dance TV e das raves, para as audiências juvenis que quase já não sabem o que é um livro. Como já mostrou em Moulin Rouge, Luhrmann é menos um cineasta do que um autor de vídeos musicais a quem são dados orçamentos gargantuescos e meios técnicos sofisticadíssimos, e que confunde estilo com aceleração visual, acrobacias de perspetiva e agressão cromática martelada em computador. O Grande Gatsby é uma contradição: um filme baseado num livro clássico, que se torna antiliterário, e antiliteratura, pelas estratégias cinematográficas e tecnológicas que usa. Fatal, para uma obra tão frágil, tão reservada e tão subentendida como esta. Tanto mais que há momentos em que Luhrmann para para respirar e o filme mostra quão melhor poderia ter sido, com uma abordagem mais tradicional e menos tumultuosa. Leonardo DiCaprio, pelo menos, merecia-o. O seu Jay Gatsby é surpreendentemente exato, fazendo passar toda a ilusão trágica da personagem.

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