Perdidos, humilhados e devastados

Preso por ter cão, preso por não ter cão. Quando Cativos passou no Festival de Berlim, alguns críticos americanos louvaram o filme de Brillante Mendoza por, ao contrário do que acontece em Hollywood, não reduzir as personagens a "bons" e "maus" e não se alimentar dos lugares-comuns do "filme de reféns". Outros críticos, do lado europeu, torceram o nariz à fita por ser "ambígua" na representação de captores e cativos, sugerindo que de alguma forma desculpabilizava os primeiros. Ora acima de tudo, e muito mais do que um filme banalmente "político" ou "de causa", Cativos, onde Brillante Mendoza recria o rapto, em 2001, de uma estância de férias nas Filipinas pelo grupo separatista islâmico Abu Sayyaf, de um punhado de turistas, quase todos ocidentais (a que se juntariam, numa segunda fase, médicos e enfermeiras filipinos), e o seu calvário de mais de um ano nas selvas, até à libertação pelos militares, é a história de uma experiência-limite vivida em coletivo. Tendo como referente do espectador a personagem de Isabelle Huppert, uma assistente social francesa, Mendoza instala a câmara bem no meio da desarrumada mole formada por sequestradores e sequestrados, e vai, pouco a pouco, peripécia a peripécia, detalhando o calvário destes e fazendo-nos compartilhar, vividamente, indignidades, privações, dramas, dissensões, desespero e exaustão, toda a devastação física, emocional e mental associada a uma situação humana extrema. Nas entrelinhas, surgem as motivações, a doutrinação e o comportamento errático dos captores (fiéis a um tal de Ben Laden), as fraturas político-religiosas existentes nas Filipinas, e as hesitações, ambiguidades e incompetência dos militares. Quem precisa de reality shows sobre sobrevivência "radical", quando tem ao dispor um filme como Cativos?

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG