Perdidos (a sério) no espaço

O astronauta norte-americano Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar a Lua, doutorou-se em Astronáutica com uma tese intitulada Line-of-Sight Guidance Techniques for Manned Orbital Rendezvous. Trocado em miúdos, o trabalho discorre sobre as enormes dificuldades que os veículos espaciais têm em orientar-se e encontrar-se no espaço. Menciono isto porque há duas grandes improbabilidades em Gravidade, de Alfonso Cuarón. A primeira, é o acidente que destrói o Hubble e a Estação Espacial Internacional, que teria uma hipótese num milhão em dar-se como o filme mostra; a segunda, é a facilidade com que os sobreviventes se deslocam para a Soyuz, e desta para a estação chinesa. Como notou outro astronauta, Dennis Overbye, escrevendo no New York Times, o que as personagens de George Clooney e Sandra Bullock fazem é "uma impossibilidade orbital", o equivalente, na Terra, "a atirar um pirata borda fora nas Caraíbas e ele nadar até Londres". Dito isto, diga-se também que Gravidade consegue que façamos vista grossa a estas duas improbabilidades. Porque é uma das mais empolgantes, visualmente deslumbrantes e aflitivas histórias de sobrevivência já filmadas, ambientada no cosmos como este não era visto no cinema desde 2001: Odisseia no Espaço. A partir de agora, há um a. G. (antes de Gravidade) e um d. G. (depois de Gravidade) para os "filmes de fato espacial", porque a fita de Cuarón passará a ser a bitola pela qual todas as próximas serão medidas. Nenhum outro filme conseguiu transmitir-nos, de forma tão tremenda e intensa, o incómodo claustrofóbico de usar um fato espacial e estar dentro de uma nave, a sensação de fragilidade, isolamento, impotência e esmagamento perante a imensidão negra e vazia do espaço, o terror da morte súbita e solitária no frio cósmico. Gravidade é o melhor filme já feito sobre a experiência de estar no espaço, e em perigo no espaço, e que põe o 3D a trabalhar para isso.

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