O único senhor de si mesmo a bordo

Pergunta: um filme de ação pode ter apenas uma personagem, que quase não fala do princípio ao fim? Resposta: claro que pode, e esse filme chama-se Quando Tudo Está Perdido, de J.C. Chandor, com Robert Redford. É o melhor filme de ação que veremos este ano e, arrisco, nos que se seguirão, bem como um dos mais admiráveis filmes já feitos sobre o tema da resistência e da sobrevivência face ao poder da natureza. É uma epopeia de um homem só, imediata e transcendente, literal e alegórica, passada num espaço (o oceano Índico) e num tempo (o nosso presente) bem definidos, mas dotada de uma dimensão intemporal. À deriva no mar alto, com um rombo no casco do seu veleiro, sem comunicações, fustigado por uma tempestade, obrigado a meter-se num salva-vidas insuflável e rodeado de tubarões, o Nosso Homem (o realizador não lhe dá nome) não cede ao pânico, não desiste de resistir à adversidade, usa de todo o seu engenho, recorre a todos os meios que lhe restam, ultrapassa aqueles que julgava serem os seus limites e arrisca até ao último momento, até estar já na vizinhança da morte, para assegurar a sua sobrevivência e fazer triunfar o espírito humano. Este extraordinário espetáculo de cinema em estado (quase)puro tem o seu farol dramático na figura de Robert Redford, que já há alguns anos andava à deriva de papéis que fizessem justiça ao seu estatuto e aos seus pergaminhos no cinema americano. Aqui, Redford está sempre sozinho e sempre em cena, numa interpretação que é ao mesmo tempo uma aventura física exigentíssima e uma masterclass na arte da austeridade expressiva, combinando o autocontrolo máximo e a interiorização cerrada, articulando o gesto e o pensamento, como se Howard Hawks e Robert Bresson fossem as suas figuras tutelares, e também as do realizador, nesta luta contra ventos e marés.

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