O erudito chistoso que pontificava no Chiado

H á umas figuras que apenas escreveram e publicaram meia dúzia de linhas, mas entraram para a pequena história da cultura por causa do seu convívio com homens de letras, artistas, jornalistas e boémios, das suas excentricidades, do seu espírito e da sua relação com uma cidade ou um lugar. Uma delas foi Gualdino Gomes, nado, criado e falecido em Lisboa (1857-1948), e funcionário da Biblioteca Nacional, que deixou para a posteridade pouco mais do que um soneto na Seara Nova, uma revista que subiu ao palco do Teatro Avenida, alguns textos satíricos numa publicação, Balas... de Papel, que durou só quatro números, e poeira de jornalismo, sobretudo em A Tarde, um dos muitos títulos que hoje repousam no já grande cemitério dos jornais alfacinhas.

Àqueles que lhe apontavam o não ter obra nas livrarias, Gualdino Gomes respondia: "Sou um leitor, não sou um escritor." E, se pouco escreveu, foi amigo de inúmeros que o fizeram, de Oliveira Martins a Aquilino Ribeiro (que lhe dedicou Estrada de Santiago), passando por Mário de Sá-Carneiro, Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Raul Proença, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Raul Leal, Teixeira Gomes, Guerra Junqueiro, Silva Gaio, D. João da Câmara, Augusto Gil ou Manuel da Fonseca. Sem esquecer os artistas como Bordalo Pinheiro, Raul Lino, Abel Manta, José Pacheko ou Stuart.

Todos lhe estimavam as opiniões, bebiam os conselhos, ouviam os juízos e temiam as críticas, feitas nas mesas dos cafés em que Gualdino Gomes se destacava pela "barbicha mefistofélica, monóculo com fita preta pendente, bengalinha em riste", como o descreveu Mário Costa em O Chiado Pitoresco e Elegante, onde o define assim: "Dissipador de palavras e piadista anedótico de grande classe." Dominava também a arte da conversa como poucos, na Brasileira, no Mónaco ou no Martinho.

Frequentador da Baixa lisboeta e do Chiado, o centro do mundo cultural e artístico da capital durante sucessivas gerações, Gualdino Gomes foi ainda um dos mais temíveis "críticos de teatro de galinheiro" do seu tempo. O galinheiro, vulgo a geral, era a zona dos lugares mais baratos, mais desconfortáveis e mais longe do palco, que Gualdino frequentava na companhia de Fialho de Almeida, para aplaudir entusiasticamente, patear sonoramente ou gozar mortiferamente as peças em cartaz, quando não mesmo fazendo-as desaparecer de cena. Foi o caso de uma, muito má, em que, aparecendo a páginas tantas no palco um actor anunciando aos outros a chegada do "senhor general" , todo o galinheiro, Gualdino e Fialho de Almeida incluídos, levantou-se e berrou: "Às armas!" Já não houve representações no dia seguinte.

Erudito chistoso, Gualdino Gomes protagonizou muitas histórias risonhas, hoje quase todas tão esquecidas como ele. Uma das que ficaram passou-se no Café Chiado pouco antes da sua morte, quando pediu um café e um queque "fresquinho" ao empregado. Este respondeu-lhe que os queques tinham acabado de chegar. Vai Gualdino e dispara: "Também eu e já tenho 90 anos !"

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