O ator da normalidade imperfeita

Philip Seymour Hoffman disse numa entrevista: "Muita gente descreve-me como sendo bucha. Ou cheio. Muito branco. Cabeçudo. (...) Mas nunca sou descrito de forma atrativa. Estou à espera que alguém diga ao menos que sou giro. Mas nunca ninguém disse." Era precisamente o não ter aspeto de estrela de cinema, não ser bem-parecido, bronzeado e esculpido em ginásio, que fazia com que Hoffman fosse um daqueles atores que o cinema precisa como pão para a boca para se manter em contacto com a realidade. No seu caso, e como notou David Thomson, um ator decidido "a desvendar o tipo de americanos que raramente são vistos nos filmes de Hollywood." Nem por acaso, o grosso da carreira de Philip Seymour Hoffman foi feito em filmes independentes, onde se distinguiu interpretando muitas personagens caracterizadas por essa normalidade imperfeita e tantas vezes infeliz, que tão bem incorporava e sabia fazer passar, e que cedo o fizeram transitar de ator secundário a principal. Lembremos o solitário e sinistro Allen de Felicidade, de Todd Solondz (1988), viciado em telefonemas anónimos obscenos; o zeloso Phil Parma, de Magnolia, de Paul Thomas Anderson (1999); o gerente bancário obececado pelo jogo de Owning Mahony, de Richard Kwietniowski (2003); o amaneirado Truman Capote de Capote, de Bennett Miller (2005), que lhe deu um Óscar; o solteirão posto perante a senescência do pai abusivo de Os Savages, de Tamara Jenkins (2007); o viciado em droga que planeia o assalto da joalharia dos próprios pais com o irmão de Antes que o Diabo Saiba que Morreste, de Sidney Lumet (2007); ou, um dos seus papéis maiores, o carismático, paternalista e perigoso líder de culto de O Mentor, de P.T. Anderson (2012). A normalidade empática e brilhante de Philip Seymour Hoffman vai fazer uma falta imensa ao cinema americano que não vive de feitos heróicos e efeitos de computador.

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