Entre a D. Célia e Georges Sorel

Da sua janela de primeiro andar baixo, uma velhota brinca com outra que passa na rua: "Então, D. Célia, a senhora não fez greve?" "Ó vizinha, eu gostava era que estas dores nas costas fizessem greve, até ia ali ao posto ver se marcava consulta...", responde esta. "Mas ó filha, hoje é greve geral, tem de lá ir é amanhã", explica a da janela. "Pois é, mas esqueci-me. Isto é os do Governo de um lado a roubar e os das greves do outro a moer e uma pessoa já não sabe para onde se há de virar", lamenta-se a D. Célia, arrastando-se, e às dores nas costas, rua acima. "Olhe, filha, melhoras da "espendilose!"", deseja a vizinha janeleira.

No meu bairro e arredores, a greve geral teorizada pelo francês Georges Sorel no início do século passado, como primeira fase para a insurreição popular armada e consequente tomada do poder pelas massas trabalhadoras, é um mito. Os pequenos comerciantes, empresários e lojistas de toda a sorte querem é clientes a entrar, não querem barricadas a ser erguidas. E o Sorel que vá dar uma volta ao bilhar grande.

Na barbearia: "Se eles tivessem um negócio de porta aberta como eu, queria ver se faziam greve! É o faziam!" Na pastelaria familiar: "Aqui não se faz disso, já basta o IVA que o Governo nos carregou em cima para dar cabo do negócio. Aqui é trabalho, trabalhinho! Não quer um bolinho com o café?" No hotel: "Faltaram umas quantas pessoas que não puderam vir porque essa malta dos transportes faz sempre greve e quem paga é quem consegue vir trabalhar. É a austeridade, é as greves, é o raio que os parta a todos." Na praça de táxis: "Ó amigo, como é que você quer que eu faça greve se já há tão pouco serviço nos dias normais? Mesmo hoje, estamos aqui uns quantos e isto não mexe... Quando não há "disto" (esfrega o indicador no polegar), nada feito. E as pessoas têm cada vez menos "disto", o problema é esse". No sapateiro: "Não há cá greves pra ninguém, isto já está mau como está. Não pode ser, não pode ser."No cafezinho onde só cabem meia dúzia de pessoas de cada vez: "Nem pensar em perder um dia de trabalho. Se eu ficasse em casa ia era gastar mais luz e mais gás e água e ainda por cima o meu filho e mais o cão iam dar-me cabo da cabeça. O calor é que podia fazer greve, ainda agora começou o verão e já estou farta." Na lojinha do pequeno centro comercial: "Votei neste Governo mas desiludi-me, é uma gente incompetente e está a dar cabo disto tudo. Mas também não faço greves à conta desse Arménio Santos e dos comunistas, era só o que faltava!..."

Esta não é uma cidade tolhida, paralisada, agitada, incendiada por uma greve geral fulminante. Como acontece, por exemplo, na Grécia, e vemos na televisão as imagens das ruas de Atenas com o comércio totalmente encerrado e quase desertas de transeuntes, confrontos violentos entre manifestantes e polícia, ambiente de colapso político e social, e uma sensação geral de salve- -se-quem-puder-que-isto-está-a-desabar. Apesar da falta de transportes e da maior parte dos serviços públicos estarem encerrados ou a trabalhar presos por fios, Lisboa continua a funcionar e os lisboetas a ir às suas vidas, com um bocado mais de incómodo que nos outros dias.

Numa dependência bancária no Saldanha (aberta), um sujeito tira dinheiro do multibanco e fala ao telemóvel, com o aparelho encaixado entre a orelha e o ombro direito: "Queria aproveitar para ali às Finanças mas deve estar fechado, como hoje é greve geral... Isto é o costume, pá. Os privados trabalham e o público fecha e a malta..." O raciocínio fica suspenso porque o telemóvel escorrega da cara suada e cai ao chão e o sujeito não sabe se lhe há de acudir, se apanhar o dinheiro que saiu da ranhura, se impedir que o cartão seja sugado pela máquina.

Pese aos oligarcas das grandes centrais sindicais, para quem as greves gerais são sempre importantes "sucessos" da luta popular que dão "excecionais" dividendos políticos, esta é a perceção que o cidadão comum tem das ditas em Portugal.Públicos parados para um lado, privados a funcionar para o outro. Até a greve geral se tornou numa rotina. No Brasil, o "povão" já percebeu que as mudanças se fazem de outra maneira, ultrapassando sindicalistas e políticos pela esquerda e pela direita.

Hoje, a D. Célia irá ao posto médico marcar a consulta para ver das dores nas costas, e Georges Sorel continuará desatualizado.

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