Ele é que é a Pátria de chuteiras

Nunca fui muito de ir ao futebol e por isso nunca vi Eusébio jogar ao vivo. Mas nasci com a televisão e, na sua pré-história, e na do futebol na televisão, no tempo em que só passava um jogo quando o rei fazia anos, apenas se viam resumos e viva o velho, e não havia o massacre diário de futebol que há hoje, vi jogar Eusébio. E lembro-me, ó se me lembro! Lembro-me de o Eusébio correr um campo inteiro como se fosse um relâmpago negro, uma seta vermelho-viva, e se outro campo houvesse, também o corria. Lembro-me de o Eusébio ter um canhão de marcar golos nos pés, e escrevo nos pés porque era tudo tão rápido e devastador, que não dava para perceber qual era o pé que chutava, se o esquerdo, se o direito. Lembro-me de o Eusébio ser superior e humilde quando marcava golos, porque ninguém os marcava como ele, e porque ia consolar os guarda-redes com uma palmadinha, uma palavra. Lembro-me do fair-play e da correção do Eusébio, e do seu respeito pelos adversários, às vezes até lhes batia palmas, onde se vê isso hoje no futebol? Lembro-me de o Eusébio apanhar pancada de criar bicho, "É um Cristo!", dizia, mas não ficava deitado a chorar ou a fazer ronha, levantava-se e voltava ao jogo, era um atleta-guerreiro e queria ganhar. Lembro-me de o meu pai, que era do Sporting, ser admirador do Eusébio e falar dele, das jogadas que fazia e dos golos que marcava, como se fosse benfiquista. Como se soletra Benfica? Eu-sé-bio. E como se soletra Eusébio? Ben-fi-ca. E também Por-tu-gal, uno e indivisível. Que me perdoe Nelson Rodrigues, mas o Eusébio é que é a Pátria de chuteiras.

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