Do fundo das recordações do liceu

Há coisas do arco da velha. Quando frequentei o Liceu Camões (hoje Escola Secundária Camões, mas para mim sempre Liceu Nacional de Camões) nos anos 70, e onde vivi primeiro os estertores do marcelismo , e depois os anos de brasa do PREC, havia um aluno que tinha um estatuto próximo do mitológico: o Boto.

E isto porque o Boto se esmerava a encher as paredes em redor do Camões, e muito para lá da zona, de frases relativas à sua pessoa, tão curtas quanto informativas ou elogiosas . Por exemplo: "Viva o Boto", "O Boto passou por aqui" ou "Palmas para o Boto". (Além disso, o Boto era também conhecido por ter uma irmã lindíssima, a Margarida, uma das raparigas mais admiradas desse tempo no Camões, que acendeu fogueiras de paixão nos corações de muitos colegas).

O Boto era de tal forma omnipresente nas paredes, muros e placards que me lembro de certa tarde o meu pai chegar a casa intrigadíssimo e perguntar-me "Quem diabo é o Boto?", porque tinha visto uma das inscrições dele num prédio da Avenida Duque de Ávila. Dizem-me que, até há alguns anos, ainda se podia ler "Viva o Boto" num muro algures.

Eu nunca fui colega de turma do Boto e nunca o conheci pessoalmente, mas ficou-me para sempre a lembrança castiça da personagem. No outro dia, estava eu no Grupo de Antigos Alunos do Camões do Facebook, num post em que se discutia a figura do Boto e o seu possível estatuto de pioneiro dos graffiti em Lisboa, e escrevi: "O que será feito do Boto?" Poucos segundos depois, surge um comentário: "Estou aqui..." Era o Boto, trinta e tal anos depois. Há coisas do arco-da-velha!

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