Direito por linhas tortas

A realidade nem sempre é como nós queremos, e por isso é que a ficção também existe. Para a corrigir e a aproximar mais do desejável e da perfeição. Depois de vermos o documentário À Procura de Sugar Man, de Malik Bendjelloul, que corrige, na realidade, com um final feliz, a história triste do músico e cantor Sixto Rodriguez, que nos anos 70 podia ter-se tornado num gigante da música popular, mas após dois álbuns absolutamente ignorados por todos caiu no esquecimento e teve uma redenção tardia nos anos 90, na África do Sul, onde, sem saber, era mais popular do que Elvis ou os Beatles, ficamos de pé atrás. Sem dúvida que a sua história, e a dos homens que, pela sua persistência, o resgataram do esquecimento, é notável. É óbvio que o compositor e cantor nascido em Detroit tem um talento acima da norma. É inegável que pelas suas qualidades artísticas e humanas, o discreto e modesto Rodriguez mais do que merecia esta redenção e as benesses emocionais e materiais que ela lhe trouxe. Mas À Procura de Sugar Man, tal como se nos apresenta, é "redondo", certinho, perfeito demais no seu final confortável, sorridente e justo para todos nele envolvidos, um documentário que, labutando sobre a realidade imperfeita, parece moldá-la para obter um remate como os da ficção edificante. A verdade é que Bendjelloul manipulou factos, omitiu informação e escamoteou dados (por exemplo, muito antes de ir à África do Sul, Rodriguez já tinha tocado na Austrália e na Nova Zelândia, onde era também muito popular) para aumentar o efeito feel good da sua narrativa sobre o resgate serôdio, emocionado e triunfal deste artista do seu anonimato da classe trabalhadora que nunca deixou. Mesmo assim, tão merecedor desse reconhecimento é Rodriguez, e tão incrível e tocante é a sua história que À Procura de Sugar Man acaba por escrever direito, ainda que por linhas tortas.

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