Construir a "mulher nova" à força

O genocídio (como no Camboja) e a destruição de uma sociedade inteira e a criação de um universo concentracionário (como na URSS e na China) são as consequências da ação das ideologias totalitárias e utópicas que, ao conquistar o poder, anunciam a aurora do "ano zero" e a construção do "homem novo". No Moçambique pós-independência, além do "homem novo", também se quis criar a "mulher nova", quando a Frelimo incluiu as prostitutas entre os muitos elementos "antissociais e reacionários" da população que foram presos em rusgas nas cidades, e as enviou para campos de reeducação no mato. Campos esses que, segundo Virgem Margarida, de Licínio de Azevedo, as prostitutas tiveram de construir com as próprias mãos. No filme, a Margarida do título, baseada numa figura real, uma jovem de 16 anos que tinha ido à então Lourenço Marques comprar o enxoval com uma familiar, vai misturada com as prostitutas para o campo de reeducação, sob a tutela de mulheres militares da Frelimo, e a sua inocência e sinceridade chocam de frente com a vivência das outras mulheres, embora conheça o mato como nenhuma outra. E a sua presença acabará por estar na origem da "revolução" que se dará no campo no final do filme, que não é aquela que as autoridades esperariam. São as detidas que "libertam" as carcereiras e lhes mostram quem é que afinal oprime quem. Com poucos meios, numa cinematografia quase inexistente, lançando mão de atrizes amadoras, sem grandes elaborações dramáticas e com personagens que não se esgotam na tipificação demonstrativa, Licínio de Azevedo realizou um filme frontal e lhano sobre uma época de Moçambique que, segundo o realizador, os mais novos ignoram e os mais velhos preferem não recordar. E é aqui que entra o cinema.

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