Avião em pleno ataque de nervos

Um avião onde todos os comissários são gay, o piloto é casado, pai de filhos e bissexual e o copiloto ainda não percebeu que gosta de homens e não de mulheres; onde as hospedeiras e todos os passageiros da Económica dormem pesadamente sedados, para não perceberem que por causa de um percalço técnico, o voo, em vez de se dirigir à Cidade do México como previsto, anda às voltas sobre território espanhol, à procura de onde fazer uma aterragem de emergência; e onde entre os raros passageiros da Classe Negócios há uma vidente que ainda é virgem e vai trabalhar para narcotraficantes mexicanos, uma antiga prostituta e proxeneta de luxo que tem a classe política espanhola na mão graças a uma coleção de vídeos feitos à socapa, um parzinho de recém-casados que carbura a sexo com mescal, o dono de um banco falido em fuga da justiça ou um ator famoso que quer distância de uma relação amorosa com uma pintora suicida. É um inconfundivelmente colorido, abichanado, destemperado, agitadíssimo pequeno mundo almodovariano, fechado num avião e em pleno ataque de nervos. E que devido às bebidas generosamente distribuídas (e consumidas) pela tripulação, com doses extra de mescal, acaba por cair num bacanal desabrido, negado apenas aos que dormem o sono (artificial) dos justos em Turística. Em Os Amantes Passageiros, e depois de ter invadido desastradamente o habitat de David Cronenberg em A Pele Onde Eu Vivo (2011), Almodóvar tenta regressar ao modo de comédia camp, speedada e muito berrante que o celebrizou na década de 80, agora com uma fortíssima proeminência da componente gay e o recurso a gags que até envolvem fluidos de órgãos sexuais. O problema deste elaborado déjà vu almodovariano é que lhe falta absolutamente a graça. E quanto mais o realizador luta pelo nosso riso e força a comédia, mais óbvio se torna que ela não está a bordo deste voo. Há desastres de aviação mais divertidos do que Os Amantes Passageiros.

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