Ator, estrela e lenda

Em 1980, Peter O"Toole resolveu voltar aos palcos, que não pisava há quase 20 anos, e fazer Macbeth no Old Vic londrino. Foi um dos maiores desastres teatrais de sempre. O"Toole incompatibilizou-se com o encenador, embirrou com tudo e todos e deu para entrar em palco (dizem que sempre embriagado) a tropeçar nos adereços, esquecendo-se do papel e, uma noite, de fato de treino e ténis. A imprensa e a crítica trucidaram-no, mas quanto pior reputação a peça adquiria, e mais se divulgavam as excentricidades de O"Toole, mais o público esgotava lotações. Vi Peter O"Toole em palco uma vez, em My Fair Lady, no West End, nos anos 1990. Se ele estava com os copos, ninguém deu por isso e, no final, a casa quase desabou com as ovações. Irlandês e turbulento, O" Toole era uma personagem de uma idade do entretenimento hoje extinta. Um ator sensível e enérgico, pródigo em exibir ou queimar o seu talento, ora notável ora desastroso, e que era também uma estrela, uma celebridade mundial e uma figura de lenda, devido à sua copofonia épica, que o devastou e é contada no livro Hellraisers, de Robert Sellers. Certo dia, por exemplo, O"Toole começou a beber em Londres e acordou no dia seguinte em Marselha, sem saber como lá tinha ido parar. No seu obituário no The Guardian, David Thomson pergunta: "Era Peter O"Toole um grande ator?" Respondo que sim, embora também pudesse ser um poderoso e afetado cabotino. A sua grandeza fica inquestionavelmente gravada em Lawrence da Arábia, de David Lean, Becket, de Peter Glenville, O Leão no Inverno, de Anthony Harvey, A Classe Dominante, de Peter Medak, O Fugitivo, de Richard Rush, O Meu Ano Favorito, de Richard Benjamin, O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, no elegíaco Vénus, de Roger Michell, ou na peça Jeffrey Bernard is Unwell, a interpretar o jornalista homónimo e seu émulo em ingestão de espíritos.

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