Açúcar, calorias e uma pitada de amargura

É uma história de resistência que é contada em Ao Encontro de Mr. Banks. A resistência feroz da bisonha e astuciosa escritora anglo-australiana P.L. Travers, a criadora de Mary Pop-pins, ao assédio oleoso e sorridente de Walt Disney, primeiro à compra dos direitos da sua obra para cinema e a seguir à "disneyficação" da mesma, com atores inadequados, melaço de sentimentalismo, pinguins animados e canções trauteáveis. Travers não quer ver Mary Poppins desfigurada pelo pai do Rato Mickey; Disney quer ver Mary Poppins na tela como ele acha que deve ser, goste Travers ou não. Desta tensão criativa desgastante nasceu um dos clássicos da Disney, Mary Poppins. E da sua história nos bastidores surge Ao Encontro de Mr. Banks, que é mais divertido e cumpre melhor como entretenimento (sancionado e supervisionado pela própria Disney, claro) quando está focado no confronto de casmurrice entre Travers e Disney e os seus colaboradores mais diretos (e sofridos)do que nos laboriosos e pingões flashbacks para a infância da autora na Austrália, que nos elucidam sobre a sua relação especial com o pai, um bancário copofónico e nefelibata, e o papel da tia Ellie na composição da personagem de Mary Poppins. O filme combina credibilidade biográfica e factual com invenções e liberdades (Travers, por exemplo, não era a solteirona frustrada que ali surge), e podemos legitimamente suspeitar de algum branqueamento da verdade histórica. Mas a única imposição relevante da Disney foi que Walt não fosse mostrado... a fumar. Personificando o sabido Disney e a atormentada Travers, Tom Hanks e Emma Thompson (e ela muito em especial) levam às costas esta confeção inevitavelmente açucarada e calórica de sentimento, mas que não exclui da receita a sua pitada de amargura.

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