A derradeira joia "art déco", com camarote cativo para Salazar

O cinema Odéon foi inaugurado a 21 de Setembro de 1927, segundo projeto de Guilherme A. Soares, exibindo A Viúva Alegre, de Erich von Stroheim, com acompanhamento musical da orquestra de René Bohet. "O cinema progride. Lisboa progride.", escrevia então o Diário de Lisboa. Modernizado em 1931, o Odéon é a derradeira maravilha art déco de Lisboa. Tem um teto em forma de quilha de navio em pau-brasil único no mundo, um lustre de néons gigantes que desce até ao chão para limpeza e manutenção, um palco com moldura e frontão de ferro art déco, um mecanismo que permite que a sala seja iluminada com luz natural. Um dos camarotes tinha lugar cativo para Salazar, cortesia da gerência. No Odéon viram-se fitas de Lang, Eisenstein, Capra, Hitchcock, Cukor, Ford ou Sergio Leone, e atuaram artistas como Laura Alves, Lola Flores ou Hermínia Silva. Em 1964, na estreia de Uma Hora de Amor, com António Calvário e Madalena Iglésias, juntou-se uma tal multidão, que a Presidência da República comunicou à gerência do Odéon que "nunca em Portugal deveriam juntar-se mais pessoas, fosse para que evento fosse, em número superior ao verificado aquando de qualquer presença pública do Chefe de Estado". O Odéon é património arquitetónico, cultural, afetivo. Em Paris, a Câmara financiou a recuperação de outro templo art déco, o lendário cinema Le Louxor, abandonado desde os anos 1980. Em Lisboa, a Câmara cede a sua joia art déco para ser mais um "espaço comercial". O cinema não progride. Lisboa regride.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG