A Blanche DuBois da era Madoff

Não há lugar como a nossa casa!", diz a Dorothy de Judy Garland em O Feiticeiro de Oz. A frase ocorreu-me depois de ter visto Blue Jasmine, de Woody Allen, porque foi preciso ele voltar a casa, aos EUA, para filmar como não filmava desde o início do século. Ironicamente, a história de uma mulher que perde tudo, incluindo um pedaço do tino e tem de ir morar para casa alheia em cidade estranha, ficando com toda a razão para não parar de repetir, com toda a força, a frase de Dorothy. Em Blue Jasmine, Woody Allen apropria-se de Um Elétrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams, para filmar aquilo a que se convencionou chamar uma "fábula moral". Que no caso do realizador não é moralista e admite pinceladas de comédia, e é também um filme sobre a crise que atravessamos, a financeira e a de valores, dos que não cotam na bolsa. Cate Blanchett interpreta a Jasmine do título, uma socialite de Park Avenue que leva uma vida saída das páginas da Vogue, da Architectural Digest e da Condé Nast Traveler. Um dia, o marido vai preso por manigâncias nos negócios, o mundo de Jasmine desaba, a sua estabilidade mental também, e tem de se mudar, com as escassas roupas Chanel e malas Vuitton que lhe restam, para São Francisco, para casa da irmã adotiva, divorciada, com dois filhos, um emprego numa mercearia e um namorado oleoso. Blue Jasmine é a história de uma Blanche DuBois (papel que Blanchett já fez no palco, e Woody Allen em travesti no seu O Herói do Ano 2000) da era Bernie Madoff e Lehman Brothers, que começa como comédia social nos altos de Manhattan e acaba como tragédia nos baixios da Costa Leste. Cate Blanchett nunca esteve tão bem na tela como a incarnar esta mulher confusa, deslocada e descentrada, náufraga de afluência e de siso, a carburar a Xanax e vodca Martini, e a quem Woody Allen, se transforma num emblema de patético, também nunca nega a contraditória humanidade.

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