Bipolaridade

Portugal e os portugueses têm tido boas notícias, a última das quais com especial significado, a recomendação da Comissão Europeia da saída do país do procedimento por défice excessivo. A aceleração do PIB no último trimestre, com muito bom desempenho das exportações e turismo, a consequente descida do desemprego e a melhoria das contas públicas, são sinais coincidentes de que poderemos estar no caminho de um novo ciclo de recuperação e convergência com a Europa. E basta andar na rua e conversar com pessoas de diversas profissões e inclinações políticas para perceber que o clima de confiança está a mudar para melhor.

Mas o melhor exemplo do otimismo que estamos a viver é dado pela reivindicação dos resultados por parte dos partidos da oposição e do governo, todos empenhados em assumir a sua paternidade.

Claro que também todos rejeitam a responsabilidade pela catástrofe que precedeu a recuperação...

Para sermos justos, acho que todos contribuíram para o que sucedeu nos piores momentos e que, agora, a recuperação que se espera não seja efémera.

Mas a maior das ilusões seria pensar que os resultados dependem apenas ou mesmo principalmente do mérito ou demérito dos políticos que nos governam. Claro que as decisões políticas sobre o Orçamento, a fiscalidade e a gestão do Estado têm influência nas decisões de investidores, empresários, consumidores e, consequentemente, na economia. E as políticas públicas na Educação, na Saúde, na Justiça, no Ambiente, na Cultura afetam as contas do Estado e a vida das pessoas.

Mas no mundo complexo e interdependente em que vivemos, quase sem fronteiras económicas, os resultados são influenciados por uma infinidade de ações e omissões de múltiplos agentes sobre os quais não há controlo político.

O que sucedeu com a crise mundial desencadeada a partir de 2008 e, no que nos toca, particularmente a crise das dívidas soberanas dos países do Sul da Europa e Irlanda, acabaram por ditar a nossa sorte no período seguinte. E as mudanças de orientação a nível europeu, especialmente do BCE com Mario Draghi, contribuíram fortemente para a recuperação que agora estamos a viver.

Isto sem diminuir o mérito, que quase todos reconhecem, dos empresários e trabalhadores portugueses que se adaptaram às condições e aos incentivos com que tiveram de operar para procurar novos mercados, impulsionar as exportações, reestruturar as suas empresas, adaptando os seus custos e valorizando os seus produtos e serviços.

E depois, há o fator sorte!

António Costa foi até agora bafejado por ela, como o foi Cavaco Silva no seu primeiro mandato como primeiro-ministro de um governo minoritário.

Mas os ventos podem mudar.

Há ainda muitas incógnitas sobre o futuro, o brexit, as eleições legislativas em França e na Alemanha e o que farão os seus vencedores, relativamente às reformas na União Europeia, Trump e as suas trapalhadas, o caos no Brasil, a transição política em Angola, etc., etc., etc.

E a nossa dívida pública não para de crescer, os partidos da extrema--esquerda reivindicam mais despesa pública, mais impostos para as empresas, mudanças no IRS para penalizarem os do costume, os seus sindicatos ameaçam.

A nossa história recente mostra que temos sido bipolares, alternando os humores de euforia/depressão e esta doença não se trata com calmantes e antidepressivos, mas com uma terapia longa e um choque de realismo e racionalidade. Precisamos de reformas que promovam o investimento e a competitividade, que continuem a desburocratizar a administração pública, que tornem a justiça mais eficiente e responsável. Estas reformas só podem ter uma base de apoio político e na sociedade se os partidos mudarem de atitude, e forem capazes de contribuir com soluções realistas para os problemas crónicos que nos têm mantido vulneráveis e impedido uma convergência permanente com a Europa a que pertencemos.

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