Sem corrupção seríamos grandes, prósperos, livres...?

1 - Falar de corrupção é uma forma popular e honesta de ganhar a vida e de ficarmos imediatamente do lado dos bons. É maravilhoso fazer-se parte do coro grego que assinala os perigos e mudanças na história, como nas tragédias, mas não podemos passar a vida a ver navios, parados no cais, petrificados, qual Torre de Belém, eternamente.

Muita gente defende que sem corrupção seríamos grandes e prósperos. É falso. É-nos difícil crescer sem capital estrangeiro e capital barato. Quando o contexto de recessão internacional regressa, voltamos sempre - mas sempre - à fome.

Corrupção. Sim, aqui como em muitos outros países europeus. Já para não falar dos outros com quem jamais nos equipararemos ("África" ou "Brasil"), apesar do ADN.

A corrupção sim, existe, mas, de tempos, a tempos aflora mais nas notícias. E exigimos um combate sem tréguas. Total. Mas... e depois? Na verdade, quanto vale a corrupção? Um por cento do PIB? Dois por cento? Sim, há teorias do seu impacto indireto ser maior. Mas é mesmo assim? E quantas pessoas realmente a praticam?

Partindo o problema em pequenas fatias: a corrupção nasce onde? Vejamos o caso dos autarcas e das autarquias: quase todos os servidores públicos são honestos. Mas na opinião geral são quase todos corruptos - e, já agora, provincianos.

Fala-se da "corrupção autárquica" (308 potenciais casas de mau governo) porque é lá que se fazem milhares de contratos diariamente.

(Todos os dias levantam voo 100 mil aviões comerciais que aterram sem problemas. Ouvimos falar de vez em quando de um que cai.)

O potencial volume de erro administrativo ou corrupção é 308 vezes maior do que na maioria dos Ministérios, onde há mais dinheiro mas porventura menos contratos - além de uma máquina jurídica bem paga (incluindo as avenças externas aos grandes escritórios) para garantir que tudo está de acordo com a Lei. Exceto, muitas vezes, o "para quê" dos contratos.

Na lógica da estatística e das notícias, as autarquias são então o centro da corrupção em Portugal. Eureka. Para muitos, o ideal era mesmo centralizarmos tudo de forma que, em Lisboa, ficasse tudo certinho e, já agora, talvez eternamente por realizar.

(Sabemos também que todas as rotundas são más, exceto a do Marquês do Pombal, tal como todos os pavilhões e piscinas são péssimos, exceto os que dão jeito aos nossos miúdos nas cidades. Ah, e há muitas autoestradas inúteis e vazias e nenhuma está em Benavente ou nem mesmo na A16, em Sintra. Só em Oliveira de Azeméis ou Alijó).

Se eu casasse com a filha da minha lavadeira, talvez fosse feliz.... dizia o poeta Álvaro de Campos. Hoje poderia ir pela A8 a Caneças e teríamos descendentes de Fernando Pessoa, o que seria algo a bem da Nação.

Os autarcas envergonham-se do indigno guichê/garagem do Tribunal de Contas, nas Avenidas Novas, em Lisboa, onde têm de entregar as resmas de papel com as atividades e contas regularmente. E ficam anos à espera que de lá saia um veredicto ou admoestação, autografado por um deus da auditoria cuja chancela não tem, de facto, contraditório decente. Depois, um qualquer dia, entra a PJ, sempre à cata dos... ex-autarcas... (como o tempo passa depressa...), já lá vão 10 anos e coisa e tal. És arguido! Morreste. Mais um anjo que caiu.

Não confiamos, nunca confiaremos

2 - A verdade é que, enquanto sociedade, não confiamos em ninguém que esteja num cargo público. É uma questão de "ethos" social. Somos "latinos", do Sul, portanto, em princípio, prevaricamos. Quando pensamos na lei, ela nasce logo ao contrário: cercar quem age.

Depois, como a lei tenta ser tão rigorosa em todos os parâmetros da contratação, o Estado fica à mercê dos mafiosos.

Questão prática: quem ganha os concursos públicos? Em regra, quem fizer as propostas mais baixas, mesmo que os valores não sejam exequíveis e a solução final seja miserável, como muitas vezes é bom de ver logo à partida.

Mas hoje em dia, quem é que num cargo público se arrisca a escolher propostas mais estruturadas ou de melhor qualidade, em detrimento do preço mais baixo? Muito dificilmente sucede - parece favoritismo.

Claro, quando se quer muito este ou aquele fornecedor... lá vêm os "esquemas legais". Encomendas abaixo dos limiares legais para permitir ajustes diretos, em catadupa q.b., ou argumentos de "marca" subjetivos, ou... E porquê? Para garantir qualidade, rapidez, parcerias, relações de confiança profissional, quiçá bons serviços. Mas quiçá, muitas vezes, também com favoritismos inaceitáveis. Qual das duas coisas é melhor? Por mim, daria mais opções de escolha aos autarcas com limites financeiros mais largos. Um risco? Sim. Mas atualmente é tudo uma farsa legal com o mesmo resultado.

Entretanto: quem consegue realmente chegar à fase de contratar com autarquias ou com Ministérios? Quem tem uma rede de conhecimentos. Nada de ilegal. Network.

O network é proibido? É corrupção? No caso da "Teia" (autarcas do Norte e IPO) parece que sim. Falta ver o que dizem os juízes. (Ainda interessará a alguém?)

Já agora, alguém consegue explicar porque é necessário pagar-se a inscrição, em cada uma das diferentes plataformas eletrónicas privadas, para se aceder a concursos de contratos públicos?

Não gerimos, nunca geriremos

3 - Sócrates. Em todo o seu esplendor, o ex-primeiro ministro não valerá (alegadamente) nem 0,00000001% do PIB nas inenarráveis malas recheadas Lisboa-Paris e outros circuitos imobiliários. Peanuts, diria Jesus.

Mas Sócrates foi uma gigantesca tragédia porque fez explodir a dívida com a contratação de "coisas", chamemos-lhe assim. Legais.

Teve uma condenação branda: perdeu as eleições. Nós carregaremos com décadas de dívida pública.

Grandes PIN - Projetos de Interesse Nacional. Quem os apoiou... levante o braço! Ninguém. O jurista Presidente Marcelo deve conhecer todos gabinetes de advogados que ajudaram a redigir contratos e dar pareceres, e as universidades que apoiaram com sabedoria e sofreguidão financeira essas boas ideias que emanavam das distintas cabeças da época. Falará Marcelo hoje com eles, chamando-os à razão? Dizendo-lhes em modo afável: "Não continuem a fazer isso! Pensem no povo!", ou então, "Não façam a engenharia dos esquemas jurídicos de forma a que fiquemos presos a eles por décadas...", "Os portugueses não merecem...".

Não conseguem ouvir o Presidente a dizer-lhes isto...? Eu gosto de Marcelo, sinceramente. É o Rei do "sistema" a criticar com plumas o "sistema". Mas antes Marcelo que qualquer outro! O quanto ele nos faz bem!

Voltemos ao coração dos negócios públicos. Grandes negócios. Legais. É aqui que entra Salgado, o homem que mais atingiu a economia portuguesa em décadas. Que falhou pela ganância e má gestão. Se fosse pela corrupção estaria, eventualmente, preso. Nada disso. Sempre bem aconselhado. Quiçá boas leis. Já a má gestão, em geral, é o nosso caos. Não apenas no BES, mas no quotidiano das empresas no país.

Podíamos fazer um coro contra a má gestão... Também seria popular porque há muito menos gestores de topo e empresários que trabalhadores ou pensionistas. É um tema que daria "likes" nas redes sociais. Mas, na verdade, qual é a diferença entre um bom gestor (ou empresário) e um "mau"? O sucesso. E isso depende do momento.

É relativamente desonesto querer pôr na cadeia ou escorraçar os tipos que falham. E na verdade isso já vai acontecendo - hoje é crime não pagar os impostos devidos. Por isso os gestores saltam fora e as empresas fecham mais depressa.

Porque a questão mais dura e final é esta: podemos gerir bem um país, sem escala nem especialidade, no contexto de uma economia forte e irreversivelmente globalizada? Por isso tornamos a nossa economia internacional, muito aberta, para termos emprego e sobrevivermos. Mas isso tem um preço. O de servirmos as empresas com escala - aquilo que um académico português (J.F. Pinto dos Santos) chamou companhias "metanacionais". São elas que nos estão a levar ao colo. Gostam de nós, e do Sol, e do peixe fresco. Antes isso.

Entretanto, as famosas PME esgravatam entre si para sobreviver. Quando chegam as "Ikea/Primark/Netflix" aos setores respetivos, ponto quase final.

Noutro plano, as exportadoras vão aproveitando enquanto há crescimento nos mercados externos, quase sempre sem marca própria e valor acrescentado. Mas sem capital para dar o salto, obedecem a encomendas enquanto aparecem.

Recorde-se que os dois maiores grupos nacionais, Sonae e da Jerónimo Martins, são essencialmente campeões no retalho. Aquilo que nos Descobrimentos se chamava comércio.

As novas gerações arranjam empregos no que há, os mil-euristas. As empresas de engenharia ou tecnologias de informação viraram-se para Portugal porque somos bons e baratos e formados a custo zero-prontos-a-usar. Outras virão, em várias áreas. Enquanto der.

Continuamos "um barato", como dizem os brasileiros.

Em resumo: acabou o ouro da Europa, estamos cada vez mais sós, especialistas em pontapés entre nós. Por isso o Ronaldo saiu tão bom.

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