Hoje, Greta Thunberg. Domingo, Rui Tavares. O mundo pode mudar

O tempo de se ficar à espera já passou. O chão está a fugir-nos dos pés. E afinal podemos fazer algo. Não apenas nas redes sociais, mas em concreto, juntando-nos esta sexta a quem quer mudar o planeta, independentemente da idade. Entretanto, e em consequência, no domingo podemos votar numas eleições europeias onde o nosso futuro global se decide - só a Europa pode liderar a revolução verde.

Já tudo foi dito a favor de Greta Thunberg. Pouquíssimo foi dito sobre Rui Tavares e o conjunto de propostas do Livre - onde se junta a fórmula certa: Política+Ambiente. A diferença das propostas do Rui está no facto dele as pensar a partir de soluções europeias e não meras intenções. Isso é decisivo.

1. Os medicamentos

Um exemplo de como a escala europeia pode fazer toda a diferença. No "60 minutos" (SIC Notícias) desta semana há uma história simples. Em 2013 as grandes produtoras de medicamentos genéricos dos Estados Unidos começaram a aumentar os preços, alguns deles em mais de 100%. Porquê? Concertação de negócios.

Repare-se: à medida que os doentes passaram a contar com o subsídio trazido pelo Medicare/Medicaid de Obama, passaram a poder poupar na farmácia e melhorar as difíceis condições de vida com que muitos se debatiam. Mas não. As grandes corporações combinaram sacar esse dinheiro "extra" ao bolso das pessoas, através da duplicação do preços de medicamentos essenciais.

O crime compensa sempre. Já passaram seis anos. O Procurador de um dos Estados (Massachussets) anda atrás destas empresas. O Congresso também passou a fazer diligências. Mas nada mudou ainda. Já conseguiram chegar a "provas" sobre chamadas telefónicas que assinalam a coincidência entre as conversas e os aumentos de preços. Mas, conseguirão mais do que isso?

Lembremo-nos que, mesmo a Europa, viveu durante anos a fio sob a concertação do valor das taxas de juro (Libor/Euribor) por meia dúzia de senhores da "city" londrina que, diariamente, por telefone, combinavam o valor dos juros pela bitola máxima do mercado (o mercado eram eles...). O que lhes aconteceu? Nada.

Ora, não basta indignarmo-nos contra isto na Internet. A maioria destas coisas é sofisticada e perdura por anos a fio antes de ser desmontada. A única forma de não sermos vítimas deste abuso de mercado é termos, à escala europeia (e não apenas nacional), quem meta estas grandes empresas na ordem. E é em coisas como estas que a União Europeia representa a única resposta.

Mas... e Bruxelas não cede aos lobbies? Sim, mas o escrutínio público é cada vez maior. O poder de denúncia (e político) do Parlamento Europeu tem vindo a crescer. Não lutar por uma União Europeia melhor é optar por ser esmagado por todos estes poderes que têm milhões de euros ou dólares para gastar em campanhas na Internet de forma a fazer-nos acreditar, através de micro ou macro escândalos, de que as instituições não valem a pena. E uma das maiores de todas, na nossa vida, uma verdadeira utopia, é algo nunca conseguido ao longo da História: paz duradoura na Europa, redistribuição de prosperidade e bem-estar para cimentar esse equilíbrio.

2. As sementes e o glifosato

Veja-se o que a Comissão Europeia fez em relação à fusão Bayer/Monsanto para percebermos que nada está adquirido na nossa vida e que uma certa burocracia de Bruxelas (que detestamos) também precisa de ser escrutinada e varrida para que esta gente não decida sem constrangimentos.

A Bayer, depois de décadas a limpar a sua imagem, acabou nas mãos de um presidente-financeiro (Werner Baumann) cujo sonho de astronómicas mais-valias convenceu os acionistas a embarcar na aventura da compra de uma das mais malditas empresas do mundo, a norte-americana Monsanto.

Como sempre, as intenções são aparentemente as melhores. A teoria de que precisamos de alimentar o mundo e, por isso, a única solução são as sementes transgénicas, cai totalmente por terra quando percebemos que estamos a falar no milionário negócio da "propriedade industrial das sementes". Os agricultores deixam de poder fazer o que sempre fizeram desde o início da humanidade: replantar as mesmas sementes de um ano para o outro.

Virar as costas a este problema é apoiar a Bayer e a Monsanto.

A massiva taxa de suicídios entre agricultores na Índia, falidos e humilhados, a desgraça multiplicada nos pequenos proprietários do mundo rural norte-americano Estados Unidos, ou a desgraça ambiental que corre os campos da soja argentina ou do arroz do extremo oriente, etc., poderia fazer estes tecnocratas pensarem. Não. Pelo contrário: é a Bayer quem quer agarrar todo este know-how para o multiplicar mundialmente.

É obviamente um Cavalo de Tróia onde a toda-poderosa empresa alemã não deixará de comprar, com os estudos certos, as decisões europeias que permitam o crescimento da agricultura transgénica na Europa. E assim, em vez de caminharmos para um continente cada vez mais biodiverso, alimentarmente seguro, vamos na direção contrária.

A decisão da Comissão Europeia em adiar para 2022 a decisão de erradicação do glifosato (Bayer) não tem impedido os tribunais de condenarem a empresa - sobretudo nos Estados Unidos - por cancro causado a agricultores em contacto com o produto.

Em Março, depois da segunda condenação, as ações da Bayer desceram 10%. Agora, imagine-se o que representaria a proibição do glifosato na agricultura ou nos jardins europeus - e por arrastamento no mundo em geral. A Europa é o farol do ambiente. O que aqui se faz serve de paradigma. Portanto: não foi a Bayer que comprou a Monsanto, foi esta que se deixou comprar.

3. O dinheiro

Rui Tavares anda há anos a falar de um novo "Green New Deal", uma ideia europeia que até nos Estados Unidos se tornou popular pela mão da congressista democrata Alejandra Osorio-Cortez. O livro que Rui publicou em 2012 - "A ironia do projeto europeu" - desmonta as teses do austeritarismo cego e deixa claro que não haverá Europa ou mundo se tornarmos o cataclismo ambiental irreversível.

Mudar o mundo atual não se faz de uma vez mas tem certamente na energia uma das questões centrais. Um dos pilares deste "Novo Pacto Ambiental" prende-se exatamente com a capacidade da União Europeia ir ao mercado obrigacionista buscar financiamento (500 milhões de euros) a taxas muito baixas e usá-los, numa primeira fase, para uma verdadeira transição energética. Isso faz-se como? Aumento de instalação de energias renováveis, sobretudo na escala do apoio ao investimento para auto-consumo - por exemplo a energia solar; aumento das áreas arborizadas, sobretudo com espécies de longo prazo, devolvendo à paisagem europeia sumidouros de carbono e paisagem autóctone; e aumentando a eficiência energética das cidades de que Portugal é exemplo (os portugueses são dos europeus que mais frio sofrem em casa).

Isto é impossível? Não é transversal à sociedade? Não é crescimento económico? Visto pela ótica dos barões da energia e do petróleo, não. Ora, temos de dar espaço e voz a estas boas ideias. Elas não contam com os milhões do marketing das multinacionais da energia nem têm o apoio político certo de quem tem um olho nos lugares e consultadorias nas administrações dessas empresas. Mas valem a pena.

4. A Guerra

Se não tivermos a Europa, Trump manda em nós. A China manda em nós. Putin, com as suas estratégias de manipulação cibernética, manda na democracia. Nem sequer chegamos a perceber como mandam. Nem porque pensamos o que pensamos - a adulteração da informação em nosso redor altera os pressupostos das nossas escolhas. Foi assim no Brexit. Foi assim na vitória de Trump. Vai ser assim de novo nestas eleições europeias. Temos de ser corajosos e votar pela nossa capacidade de decisão coletiva.

Viriato Soromenho-Marques escreveu num recente livro-ensaio, "Depois da Queda", que "Nietzche reconheceu na Europa e nos europeus a versão macroscópica desta síndrome de ódio fratricida que dilacerou a Grécia Antiga e a tornou vulnerável à submissão perante potências culturalmente menos ricas e complexas". E acrescenta: "Freud identificou na violência europeia, exibida nos campos de massacre da Primeira Guerra Mundial, o trabalho da "pulsão da morte" numa dimensão civilizacional inquietante".

Nenhum dos dois estava vivo para ver depois como, neste mesmo território europeu, atingimos o auge da demência com o Holocausto.

Que fazemos? Cruzamos os braços e entregamo-nos a algozes como Steve Bannon, o demagogo que coligiu as tendências tóxicas do nosso inconsciente e as desembrulhou digitalmente nas retóricas populistas de Trump ou Nigel Farage?

No livro que citei do Rui Tavares, o último parágrafo diz: "O que foi feito na Europa nos últimos tempos tem de ser invertido, e depois reformulado. Tudo o que é antidemocrático, absurdo e irrealista pode ser substituído por coisas democráticas, que façam sentido e sejam sustentáveis. E isso não será feito pela Comissão nem pelo Conselho, pelos partidos nem pelos Governos, pelos banqueiros nem pelos políticos. Quem tem de o fazer somos nós. Porquê? É muito simples. Porque os marcianos não virão cá fazer por nós. Porque os mortos já não podem. Porque os vindouros ainda não podem. Não há mais ninguém: tudo depende de nós."

Fica claro: no domingo cada um de nós escolhe a que categoria pertence.

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