Gomes, camisola 9: atirando para o  fundo do gol

Durante muitos anos lembrei-me sempre de 22 de Novembro. É o dia de aniversário do Gomes.

Gomes, só assim, sem Fernando. Gomes o goleador. Depois Gomes, o bi-bota.

A história é longa e começa na escola primária, nos duros anos que campeão, só o Benfica ou Sporting. Até que surge Pedroto. E Pedroto transforma um jovem avançado das escolas da Constituição no maior goleador da década de 70 e 80.
Gomes era o homem golo nas Antas e eu era o Gomes na escola, ponta-de-lança de voar ao primeiro poste, remate fácil, bola no fundo das redes. "E... quiii... goool", gritou o relatador brasileiro Amaro 298 vezes nos anos seguintes só em provas nacionais, somando-se a Norte os títulos ausentes há 19 anos, desde aí sem parar.

Hoje, Gomes está doente.

Gomes já esteve doente e ficou bom. Em miúdo, a minha escola ficava perto do Hospital de Santa Maria, no Porto. Um dia, no fim das aulas, entrei pelo hospital dentro para descobrir onde estava o Gomes, recém-operado. Lembro-me de bater à porta do quarto para vê-lo de perto, real, ele, que ainda há minutos tinha marcado vários golos no recreio da escola através de mim, camisola 9 imaginária, cabelo liso imaginário já que o meu não voava ao vento.

Era ele, ali, o homem-golo, o concretizador dos nossos sonhos. Ele estava em todas as camisolas que eu vestia para jogar mesmo e em todas as bolas que eu chutava ou cabeceava na rua.

Gomes era literalmente o bisturi das nossas conquistas. "Bola para Gabriel... que dá ao centro p"ra Oliveira, qui levanta para... Gomes... e ééé GOOOOL!".

Fui pela mão do meu avô às Antas muitas vezes mas são inesquecíveis os jogos da últimas jornadas de 77-78 e 78-79, os dois primeiros títulos da era Pinto da Costa. Multidões a torrar ao Sol desde o meio dia para jogos às 4 e 5 da tarde. Os bombeiros a regar os espetadores para reduzir o risco de insolação. O título era ali, na última jornada. Contra o Braga, 4-0, dois de Gomes em 78; contra o Barreirense, 4-1, um de Gomes, em 79. Sempre Gomes todos os jogos.

Gomes partiu em 1980 para o Gijón, de Espanha, e foi uma tristeza imensa. E não foi um sucesso no Gijón. Por culpa do Gijón, claro. Dois anos depois voltou a casa, para junto de nós, os seus amigos da bancada, e Pedroto também voltou (partiu quase de imediato, para sempre, mas os títulos choveram sem parar).

Nesse arranque da década de 80, Gomes marcou e marcou e marcou. E fomos tão longe que até chegamos à final das Taças das Taças, que perdemos contra a Juventus mas não perdemos o nosso goleador: melhor marcador da Europa em 1983 e 1985. Gomes, bota de ouro. Gomes, bi-bota de ouro!

Bela com senão: Gomes, o nosso herói, mas talvez não nos penalties... Sobretudo contra Bento, na baliza do Benfica...
E na Seleção também, vida difícil: Jordão marcava, Nené marcava, Manuel Fernandes marcava. Gomes somou apenas 13 golos em 48 jogos.

Além destas, a mais dolorosa das voltas da vida: a inacreditável lesão num treino, nas vésperas da final da Taça dos Campeões 1987. Viena sem Gomes é quase uma vitória total. Está lá tudo. Ou quase. Falta ele.

O Porto e Gomes ganham a seguir a Taça Intercontinental na neve, e depois a Supertaça contra o Ajax, e ainda mais títulos.
E depois o tempo avança e os problemas começam. Regressa Artur Jorge que reinventa o Porto, mas já não reinventa Gomes. É então que, de repente, "Gomes, camisa 9"... vai para o Sporting...! Como é que nós, portistas, ou portistas/gomistas, continuamos e tê-lo no coração quando ele vai para... Lisboa?

E ele ainda marca 31 golos em Alvalade mas nunca volta a ser o mesmo, pelo menos para nós.

Quanto tudo aquilo acaba (1991), nem ele faz parte do Sporting nem da nossa alma... Gomes era no fim de tudo apenas e só Gomes sem nós.

Ficava a questão: como não pode ser ele de novo dos nossos?

Um dia as pazes fizeram-se e ele voltou. Mas este regresso ficou suspenso pela falta de um verdadeiro reencontro com a multidão que, em certo sentido, se perdoou, nunca esqueceu.

Até que a 3 de Novembro de 2019, ao minuto 9, o estádio levanta-se para apoiar o "Gomes, camisola 9", o maior goleador com a camisola do dragão até hoje.

Está na hora de recomeçar. Há muitos golos para celebrar, os do passado e os do futuro. Este Porto é teu. Gomes: 22 de Novembro forever.

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