Capoulas Santos anunciou que lidera o Governo do boi

1. Se alguma dúvida havia sobre qual a camisola de Capoulas Santos, ela ficou demonstrada no caso "carne de vaca" da Universidade de Coimbra. Num momento em que Bolsonaroé vexado mundialmente como chefe da Bancada do boi no Congresso brasileiro (com as consequências que estão à vista na Amazónia), o ministro da Agricultura sai da caverna para anunciar ao mundo o seu incómodo pela diminuição do consumo de carne de vaca numa instituição pública pois, como se sabe, as metas da descarbonização são boas para todos, em abstrato, mas depois não se destinam a ninguém em particular. E Capoulas, que já tinha brilhado ao tergiversar sobre a limitação do herbicida glifosato na União Europeia, volta à liça, em contramão com a história.

Além de ser uma descortesia gratuita estar a imiscuir-se na autonomia de uma universidade, deu-se ao trabalho de contrariar a posição de Matos Fernandes, seu par no Ambiente, anunciada na véspera. Posição, aliás, supostamente alinhada com aquelas que António Costa anda a propagar em todos os debates.

Por aqui se percebe como o ministro da Agricultura não percebe o tempo em que vive e a quem presta contas. Talvez António Costa não se tivesse apercebido nas consequências da larga autonomia política dada ao histórico do PS.

Com este gesto do seu ministro, os socialistas deram mais uma machadada em quem ainda tinha esperança de que o discurso sobre as alterações climáticas é sério.

O primeiro-ministro deveria dar um sinal de que, de facto, vai fazer uma renovação séria, caso forme Governo, para ser coerente com o que diz e sente. Era suposta já ter acabado o tempo dos barões do "socratismo das corporações" no PS. Ou então é uma ilusão pensar-se que o PS nunca deixará de ser o partido que os lobbies mais gostam para lhes fazer os favores sem complexos.

2. O tom de Eduardo Cabrita sempre foi demasiado possidónio. A forma como reagiu aos acontecimentos durante os incêndios foi por vezes muitíssimo desagradável. Mas, no caso das golas de Arouca, chega a ser de pôr as mãos à cabeça face ao que se vai conhecendo.

António Costa, solidário, foi defendendo o indefensável. Já estará certamente arrependido. Não porque se possam tirar conclusões antes da Justiça, mas essencialmente devido ao facto de ser impossível que lhe tenham dito toda a verdade, com detalhe, em todos os momentos.

O primeiro-ministro devia anotar na sua agenda o dia 19 de Setembro, para não se esquecer: o dia em que Eduardo Cabrita e Capoulas Santos se autodemitiram da possibilidade de entrada num próximo Executivo.

3. Indo a uma questão essencial: a Segurança Social é um tema que a campanha eleitoral não devia largar. Vale a pena ler o artigo de ontem de Pedro Tadeu, aqui no DN, para não se perder de vista como têm evoluído as posições dos diferentes partidos quanto à estabilidade e financiamento de um sistema vital para a sociedade.

E o tema ainda é mais importante porque a esperança de vida está a crescer e o processo de transformação do mundo do trabalho vai entrar numa aceleração tecnológica como nunca vimos.

Há contas feitas projetando o que se vai ganhar e perder em Portugal nas áreas da transformação acelerada do mundo do trabalho. O estudo da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), realizado pela McKinsey e pela Universidade Nova de Lisboa, assinala a perda de 1,1 milhões de empregos até 2030 por via das alterações tecnológicas - embora a par do surgimento de 600 mil a 1,1 milhões de novos empregos. (Está subtendido que o grosso dos empregos perdidos não são ocupados pelas mesmas pessoas por razões de competência profissional).

Num dos programas televisivos em que António Costa participou, com a presença de cidadãos em estúdio, uma senhora com pouco mais de 50 anos dizia-lhe algo nesta linha: era um quadro superior de uma empresa que fechou. Hoje é rececionista e ganha pouco mais do que o salário mínimo. Antes pagava uma taxa alta de IRS e um valor substancial de Segurança Social. Mas como apenas os últimos 15 anos de trabalho contam, para ela, todos aqueles descontos foram em vão. Corre o risco de ficar de novo desempregada antes dos 60 e ter de recorrer à pré-reforma - tudo isto tendo por base um salário muito baixo (o dos últimos anos de trabalho com cálculo baseado no salário mínimo). Ou seja, esta senhora está praticamente condenada a uma vida de pobreza apesar de ter descontado brutalmente durante os primeiros 25 ou 30 anos de trabalho.

O que se responde a isto?

Claro, poderemos, de forma quase consensual, querer carregar sempre na mesma fórmula: mais descontos das empresas. Mas a fórmula não pode ser a do costume. Se por um lado, a famosa Taxa Tobin (0,5 por cento sobre as transações financeiras) acabará um dia por ter de existir - como mecanismo de redução de assimetrias sociais -, a incorporação de impostos sobre a máquina (subsidiando o detentor do posto de trabalho que substituiu) tem de ser pensada desde a primeira hora.

Numa visão liberal, trata-se de mais um imposto que onera quem inova. Mas, todos sabemos que a produtividade/hora de uma máquina gera potencialmente rendimento acima do trabalho humano. Portanto, se o trabalhador pagava Segurança Social, porque não há de a máquina contribuir para evitar a pobreza da pessoa que efetuava aquela tarefa anteriormente?

Joseph Stieglitz, no livro "O Preço da Desigualdade", sublinha um ponto essencial para se perceber a justeza e mérito de uma taxação sobre a inteligência artificial/robôs: "Se o Estado não providencia estradas, portos, educação ou investigação básica - ou trata de garantir que alguém o faça ou cria as condições para alguém o conseguir fazer - os negócios não conseguem florescer". Acrescentando: "Os Estados Unidos e o mundo beneficiaram imenso da investigação subsidiada pelo Estado".

Não sou um defensor do Estado em tudo, mas temos de compreender como no topo da pirâmide da inovação está toda uma base desenvolvida com o dinheiro dos impostos de todos. Não redistribuir essa criação de riqueza seria uma forma de apropriação ilegítima dela apenas pelas grandes corporações. Não podemos deixar que a pobreza se instale como uma consequência/doença da falta de mérito e é essencial percebermos que só a dotação de um sistema de pensões robusto, sem deixar cair os mais frágeis, nos permitirá continuar a viver em conjunto. Porque ou há Estado e Segurança Social, ou disseminamos a selva social que já vemos a crescer - por exemplo nos Estados Unidos.

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